sábado, 26 de novembro de 2011

Willis Carrier, Heroi da Biblioteca




Willis Carrier nasceu em 26 de novembro de 1876. Tornou a vida nos trópicos mais suportável. É considerado o pai do aparelho de ar condicionado moderno (1906). Cada cidade brasileira devia dar a ele uma estátua e, pelo menos, o nome de uma avenida...

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Conto da Semana, de Bertolt Brecht

Medida contra a violência, de Bertolt Brecht. Integra O Melhor do Conto Alemão no Século 20, organizado por Rolf Renner e Marcelo Backes (o tradutor). L&PM.


Certo dia o senhor Keuner, o Pensante, se pronunciava contra a violência num auditório; de repente, percebeu que as pessoas se distanciavam dele e, por fim, se afastavam. Olhou em torno e viu parada atrás de si... a violência.

- O que tu disseste? – perguntou-lhe a violência.

- Eu me pronunciava a favor da violência – respondeu o senhor Keuner.

Quando o senhor Keuner foi embora, seus alunos lhe perguntaram por que dobrara a espinha. O senhor Keuner respondeu:

- Eu não tenho espinha dorsal para vê-la destroçada. Justamente alguém como eu precisa viver mais tempo do que a violência.

E o senhor K contou a seguinte história:

À casa do senhor Egge, aquele que aprendeu a dizer não, chegou certo dia no tempo da ilegalidade, um agente exibindo um certificado expedido em nome daqueles que dominavam a cidade e dizendo que lhe pertencia toda a casa em que pusesse os pés; da mesma forma, pertencia-lhe toda a comida que ele pedisse; da mesma forma, deveria servi-lo todo homem que ele visse.

O agente sentou-se numa cadeira, pediu comida, lavou-se, deitou-se e perguntou, com o rosto virado para a parede, antes de adormecer:

- Tu vais me servir?

O senhor Egge cobriu-o com uma coberta, espantou as moscas em volta dele, vigiou seu sono e, assim como nesse dia, obedeceu ao longo de sete anos. Mas, se fazia tudo pelo agente, uma coisa guardou-se de fazer: dizer uma palavra que fosse. Quando se passaram os sete anos e o agente já engordara de tanto comer, dormir e mandar, o agente acabou morrendo. O senhor Egge enrolou-o em sua coberta deteriorada, arrastou-o para fora da casa, lavou a sala, caiou as paredes, suspirou e enfim respondeu:

- Não.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Joaquin Rodrigo e o Concierto de Aranjuez


 Faria 110 anos hoje, dia 22 de novembro. Cego de nascença, sua obra mais famosa é o Concierto de Aranjuez. Aqui, Paco de Lucia toca o segundo movimento, o Adagio.

domingo, 20 de novembro de 2011

O Ponto de Aldo Manuzio



No princípio do século V, são Jerônimo, tradutor da Bíblia, desenvolveu um sistema conhecido, conhecido como per cola et commata, no qual cada unidade de sentido era marcada com uma letra que sobressaía da margem, como se iniciasse um novo parágrafo. Três séculos mais tarde já se utilizava o punctus tanto para indicar uma pausa dentro da oração quanto para assinalar sua conclusão. Seguindo essas convenções confusas, os autores dificilmente podiam esperar que seu público lesse um texto com o sentido que eles tinham pretendido conferir-lhe.

Até que, em 1566, Aldo Manuzio, o Jovem, neto do grande impressor veneziano a quem devemos a invenção do livro de bolso, defini o ponto em seu manual de pontuação, o Interpungendi ratio. Ali, com seu claro e inequívoco latim, Manuzio descreve pela primeira vez seu papel e seu aspecto definitivos. Ele pensou que estava preparando um manual para tipógrafos; não podia saber que oferecia a nós, futuros leitores, os dons do sentido e da música para toda a literatura posterior: Hemingway e seus staccatos, Beckett e seus recitativos, Proust e seu longo sustenido.

Alberto Manguel, À Mesa com o Chapeleiro Maluco. Traduzido por Josely Vianna Baptista.

sábado, 19 de novembro de 2011

A História Trágica do Doutor Fausto, de Marlowe



FAUSTO

Ouve-mos ler então: “Nos termos seguintes: primeiro, que Fausto haja de ser um espírito em forma e substância; segundo, que Mefistófeles o sirva e esteja às suas ordens; terceiro, que faça e lhe traga tudo quanto deseje; quarto, que se conserve em seus aposentos ou em sua casa, mas invisível; último, que apareça ao dito João Fausto todas as vezes e sob todas as formas e aspectos que este deseje. Eu, João Fausto, de Wertenberg, doutor, dou pelo presente, tanto o corpo como a alma a Lucifer, príncipe do Oriente, e a seu ministro Mefistófeles; e mais lhe concedo, expirado o prazo de 24 anos, e mantidos os artigos acima indicados sem violação, plenos poderes para virem buscar e levar o dito João Fausto, corpo e alma, carne, sangue e bens, para a sua habitação, onde quer que ela seja. Eu, João Fausto (p. 60-61).

Consta que a primeira obra literária a respeito surgiu em meados do século XVI, na Alemanha – Historia von D. Johann Fausten – e que o personagem teria sido um médico em Wittenberg, famosa cidade universitária onde Lutero ensinou.

Em geral, temos mais referências do Fausto de Goethe, mas é de Christopher Marlowe, The Tragical History of Life and Death of Doctor Faust, publicado em 1604. A Editora Hedra, parceira da Biblioteca, publicou este ano a versão traduzida por A. de Oliveira Cabral. Até onde eu sei, o único filme feito a partir de Marlowe é de 1967, dirigido por Richard Burton (e que não vi).



O Fausto de Marlowe, contemporâneo de Shakespeare, assina o pacto com seu sangue, depois de apresentar algumas dúvidas. Passará os próximos 24 anos visitando o Papa, a corte lhe observar/ Na festa de São Pedro tomar parte. Fausto se diverte pregando peças. Visita o Imperador do Sacro Império Romano, a quem apresenta ninguém menos que Alexandre Magno. Outro momento interessante é o da apresentação dos Sete Pecados Mortais.

Mas á medida que o tempo se esvai, volta a se angustiar com o pacto. Pede possuir Helena de Troia – Foi este o rosto que lançou no mar mil barcos. E, quando o Diabo vem cobrar o que lhe é devido (Estás condenado, Fausto. Desespera e morre!/ O Inferno reclama os seus direitos) e pede clemência:

Ah! Fausto,
De vida, uma só hora agora tens,
E então estarás perdido eternamente!
Parai, esferas do Céu sempre moventes,
Cesse o tempo e não chegue a meia-noite

E, à meia-noite:

Soou! Soou! Corpor, desfaz-te em ar,
Ou Lucifer te arrasta para o Inferno...

(Trovões e relâmpagos)

Oh, alma, torna-te em gotinhas de água,
E cai no mar, pra não ser’s mais achada”

(Entram diabos)

Meu Deus! Meu Deus! Não me olheis tão ferozes!...
Cobras, serpentes: que eu respire um pouco!;;;
Fecha-te, Inferno! Lúcifer, não venhas!...
Eu queimo os livros...ah...ah!...Mefistófeles!...

(Saem os diabos com FAUSTO).

O Fausto de Marlowe não tem a sorte do Fausto de Goethe, que acaba tendo sua alma salva.

Um Fausto sem Sorte


De Orlando van Bredan (Argentina, 1952) e traduzido por mim mesmo...

Fausto Salinas, como o Fausto eterno, decidiu pactuar com o diabo.

- Entrego-te minha alma – propôs – em troca de que todas as mulheres queiram me ter em seus braços.

- Isso é tudo? – perguntou Lúcifer.

- Isso é tudo – confirmou Fausto Salinas, antes, pouco antes do Rei das Trevas o transformar em um bebê, um belíssimo bebê de sorriso irresistível.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Pequena Fábula, de Kafka



Pequena Fábula, de um dos heróis da Biblioteca, na tradução de Modesto Carone. O desenho acima é do americano Peter Kuper, em Desista!, HQ baseada na obra de Kafka e publicada pela Editora Conrad:

- Ah - disse o rato - o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra, que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro.

- Você só precisa mudar de direção - disse o gato -e devorou-o.

Cinco filmes sobre a Primeira Guerra


Em 11 de novembro de 1918, terminou a Primeira Guerra.

Aqui meus cinco filmes favoritos sobre o evento (em ordem cronológica):

Nada de Novo no Front – 1930. EUA. Dirigido por Lewis Milestone. Baseado na obra de Remarque e considerado por muitos o maior filme antiguerra de todos os tempos.

A Grande Ilusão – 1937. França, de Jean Renoir. Com Jean Gabin (tenente Maréchal), Pierre Fresnai (oficial Boeldieu) e Erich Von Stroheim (no papel de Von Rauffenstein). Soldados franceses capturados são tratados com dignidade pelo exército alemão. Os oficiais Boeldieu e Rauffenstein, apesar de inimigos, lamentam a perda de um certo código, de valores aristocráticos, pertencentes a uma civilização que sabem que está prestes a desaparecer (o alemão diz: independente do resultado desta guerra, é o nosso fim...).

Glória Feita de Sangue – 1957. EUA, dirigido por Stanley Kubrick e com Kirk Douglas como o coronel Dax, que irá interceder por seus soldados submetidos à corte marcial por não terem obedecido às ordens para um ataque suicida dada pelo medíocre general Mireau (George Meeker), na fase da “guerra das trincheiras” no front francês. Na última cena, os franceses põem uma alemã capturada para cantar – eles começam zombando da moça, mas aos poucos vão ficando emocionados e introspectivos, à medida em que ela canta. Kubrick casou-se com a atriz.

Lawrence da Arábia – 1962. Inglaterra, dirigido por David Lean, com Peter O’Toole (este é o seu filme...), Omar Sharif, Alec Guinness, Anthony Quinn; trilha sonora de Maurice Jarre (inesquecível, como aliás o filme). Tive o prazer de vê-lo no cinema, em 1992, numa sessão em Copacabana comemorando o 30º aniversário da produção. Talvez por isso, dos cinco, o meu favorito.

Gallipoli – 1981. Australia, dirigido por Peter Weir e com Mel Gibson, talvez em seu melhor filme. Na trilha sonora, o filho de Maurice, Jean-Michel Jarre (Oxygène) e Albioni e seu famoso Adagio.

Qual a sua opinião? Algum outro favorito?

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Dr. Livingstone, I presume


10 de novembro de 1871:




We push on rapidly. We halt a little brook, then ascend the long slope of a naked ridge, the very last of the mytiads we have crossed. We arrive at the summit, travel across, and arrive at its western rim, and Ujiji is bellow us, embowered in the palms, only five hundred yards from us! At this grand moment we do not think of the hundreds of miles we had marched, of the hundreds of hills that we have ascended and descended, of the many forests we have traversed, of the jungles and thickets that annoyed us, of the fervid salt plains that blistered our feet, of the hot suns that scorched us, nor the dangers and difficulties now happily summoned. Our hearts and our feelings are with our eyes, as we peer into the palms and try to make out in which hut or house lives the white man with the gray beard we heard about on the Malagarazi.

white man with the gray beard é Livingstone; o autor do texto, Henry Stanley.



domingo, 6 de novembro de 2011

A Pele que Habito, de Pedro Almodóvar



Difícil de tentar resumir o enredo sem estragar o filme. 

Antonio Banderas interpreta, pela primeira vez em muitos anos, um personagem que não o próprio Antonio Banderas, o brilhante médico Ledgard. 

Há uma mulher misteriosa (Elena Anaya), que vive encarcerada em sua residência e laboratório, vigiada pela governanta (Marisa Paredes). Como ela parou lá; o que ele faz – tudo começa a ser explicado a partir da metade do filme.

Surpreendente... há ainda a mulher de Ledgard, que morre vítima de queimaduras; a filha Sofia, que conhece Vicente num casamento. Algo de Frankenstein com um plano de vingança levado às últimas conseqüências, nos mínimos detalhes, que acaba sendo descoberto  no final... Almodóvar, polêmico como sempre, num filme que me parece muito diferente de seus anteriores - ao menos dos últimos.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Conto da semana - O Sanatório de Bruno Schulz



Klepsydra. O sanatório situa-se no fundo do vale, do outro lado de uma passarela com corrimão instável feito de galhos de bétula. Trata-se de uma grande edificação em forma de ferradura, dirigida pelo dr. Gotard, descobridor da reversão do tempo. Graças a essa singular descoberta, tudo na clínica está levemente atrasado e, em consequência, pacientes que acreditamos terem morrido em outro lugar ainda estão vivos quando chegam. No entanto não se podem erradicar totalmente suas mortes, que deixam certos traços em suas existência (...) Tudo o que se pode dizer com certeza é que o passado foi reativado e que há, portanto, uma possibilidade de recuperação.

Essa descrição do Sanatório está no incrível Dicionário de Lugares Imaginários, de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi.

Achei essa edição (Editora Imago, 1994, tradução de Henryk Siewerski), que acreditava esgotada, na Livraria da Travessa no Rio, há menos de um mês. Creio que posso dizer que, agora, tenho suas obras completas - já tinha, da mesma editora, Lojas de Canela

O dr. Gotard tenta explicar a José, o narrador, como as coisas funcionam:

- Todo o nosso truque – acrescentou, disposto a demonstrar seu mecanismo nos dedos já devidamente preparados – é atrasar o relógio. Aqui estamos sempre atrasados no tempo um certo intervalo, cuja amplitude é impossível definir. A questão se reduz a um simples relativismo. Aqui a morte do seu pai, a mesma que já ocorreu na sua pátria, ainda não o alcançou (p. 161).

As pessoas lá passam a maior parte dormindo; lá não funciona a linha do tempo, totalmente fragmentada. Um lugar imune ao tempo. Ao final, um exército estrangeiro invade a cidade. José deixa o Sanatório, aliviado – é sorte que no fundo meu pai já não esteja mais vivo, que, na verdade, isto já não o atinja – penso aliviado, e vejo na minha frente uma fila de vagões prontos para partir (p. 183).

Bruno Schulz, o autor do conto da semana, nasceu em Drohobycz, atualmente na Polônia mas, à época (1892), um pedaço do Império Austro-Húngaro. Seus contos são, como ele próprio admitia, um “romance autobiográfico”. Seu pai, Jacob, era comerciante e possuía uma loja de tecidos, e é evidente a sua presença nos contos que chegaram até nós.

Sempre comparado a Kafka, traduziu seu O Processo para o polonês em 1936. No livro Entre Nós (Companhia das Letras, 2008, tradução de Paulo Henriques Britto), Philip Roth entrevista Isaac Bashevis Singer, que afirma:

Saí da Polônia em 1935. Na época, Schulz não era bem conhecido – e se era conhecido, eu não sabia nada sobre ele. Nunca tinha ouvido falar nele. A minha primeira impressão foi: este homem escreve parecido com Kafka. Há dois escritores que, segundo se diz, escrevem como Kafka. Um deles era Agnon (...) Mas quanto mais eu lia Schulz – talvez eu não devesse dizer isto – eu dizia: ele é melhor do que Kafka. Alguns de seus contos têm mais força. Além disso, ele é muito forte no absurdo, mas não de maneira ingênua, e sim inteligente. Eu diria que entre Schulz e Kafka existe uma coisa que Goethe chama de Wahlverwandtschaft, uma afinidade de almas que a própria pessoa escolhe. Pode ter sido isso que ocorreu com Schulz (...). 

No último conto da edição – A Última Fuga do meu Pai – o (único) personagem de todos os textos de Schulz transforma-se num caranguejo – ou um grande escorpião, considera o narrador – e é imediata a lembrança d’A Metamorfose...

Além de escritor, era desenhista - a edição que tenho traz dois desenhos, inclusive um autorretrato.


No inverno de 1942, foi morto com um tiro na cabeça, no meio da rua, por um oficial alemão.