segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A Página Assombrada por Fantasmas, de Antônio Xerxenesky


Editora: Rocco
Ano: 2011
128 páginas


Em geral coloco o livro que estou lendo nos cantos do blog, mas li essa coletânea de nove contos em algumas horas; sequer deu tempo... 

São contos – como o do último post, o conto da semana passada – curtos, sempre jogando com a própria literatura. No conto escolhido para o título, a presença de Borges assombra uma Buenos Aires que parece pairar sobre uma outra, moderna e infestada de turistas. Ou o detetive especializado em localizar escritores reclusos e que, numa viagem a São Petersburgo (onde mais?) descobre um complô envolvendo Thomas Pynchon e... Ana Kournikova!

São contos em certo sentido bastante pessoais; o autor consegue com indiscutível sucesso colocar seus autores e livros favoritos como os principais personagens. Pode-se torcer para que ocorra a Xerxenesky aquilo que ele mesmo descreve de seu personagem:

Charles Mankuviac. Brasileiro, apesar do nome. Um escritor contemporâneo de grande repercussão mundial, apesar de brasileiro.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Sequestrando Cervantes, de Antônio Xerxenesky



Em A Página Assombrada por Fantasmas (Editora Rocco, 2011), Antônio Xerxenesky (n. 1984) apresenta nove contos, quase todos passados no futuro. Neles, o autor se vale das leituras que fez – Vila-Matas, Pynchon, Cervantes - para criar situações na fronteira entre ficção e realidade. Na verdade, essas leituras são os principais personagens de seus contos. Neste sentido, é impossível não lembrar imediatamente de Enrique Vila-Matas...

Em Sequestrando Cervantes, o conto da semana, Xerxenesky mostra um mundo em 2085, no Reino Unido, sob domínio de um “partido ceticista”. Um mundo em que é raro encontrar folhas de papel, os livros “analógicos” ou mesmo especialistas em literatura.

O novo regime se propõe a alterar os livros – no caso, Dom Quixote; os livros de cavalaria de sua biblioteca seriam substituídos por tratados científicos. Também as coisas seriam invertidas, e Sancho veria os gigantes, sendo repreendido por Quixote (aliás, Alonso Quijano). Um complô contra os livros, liderados pelo governo, que o narrador parece descobrir ao abrir uma pasta esquecida num café.

Na pasta, papeis – coisa rara. O governo continuava usando este suporte porque papel se tornou muito mais seguro do que texto digitalizado. E descobre, ao ler o calhamaço de 500 páginas, o plano da alteração literária progressiva: reescrevendo o romance, ao longo do tempo, ninguém notaria e a memória coletiva se esqueceria dos detalhes. Logo Quixote não seria mais louco, mas míope; velho demais para a época, havia desgastado sua visão com o excesso de leituras.

Algo tem que ser feito, mas o quê? O narrador reconhece que nada lhe resta a não ser contar essa história – a história do fim.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

As bibliotecas de Goulemot


Editora: Unesp
Ano: 2011
Tradução: Maria Leonor Loureiro
236 páginas


Para mim, uma biblioteca pública é essencialmente um lugar consagrado à leitura. Tomei nitidamente partido entre a comunicação e a conservação nesse debate que ainda divide, ao que parece, os curadores e a administração das bibliotecas. Sou partidário da comunicação, apesar de meus gostos de colecionar inveterado e de entesourador de impressos e apesar da consciência de ter a biblioteca outras necessidades que as do leitor em geral. Desde a adolescência, frequento muito as bibliotecas, e fico geralmente feliz e satisfeito. Li aí mais livros do que no meu escritório ou no trem, e um destino de professor universitário de província fez de mim um usuário cativo desse último (p. 7).

Nos últimos anos, passei a me interessar pelos “livros sobre livros”, é bem verdade desde que me tornei leitor assíduo de Alberto Manguel. Sua visão da leitura e seus livros sobre a sua própria biblioteca, como um refúgio privado, agora no interior da França conquistaram diversos leitores.
A Biblioteca, para Jean Marie Goulemot, é em certo sentido radicalmente oposta à visão de Manguel. Se para este a biblioteca é um lugar de leitura solitária e intimista, numa atividade essencialmente individualista, Goulemot se dedica à leitura em ambiente público, uma leitura gregária, livremente imposta e vigiada.
Por outro lado, ambos – e, a rigor, todos os bibliômanos – têm uma característica em comum: são colecionadores. Mas ainda assim, é possível ver diferenças – Goulemot admite, por exemplo, que por diversas vezes vendeu um livro raro que possuía e lucrou bem como isso.
Neste ensaio lançado pela editora Unesp - e que achei por acaso na Livraria da Travessa no Rio -, que tem como tema central a biblioteca pública, Goulemot não escreve sobre a (ou uma) história destes templos. Mas passa pelos pontos que todos esperamos em uma obra desta natureza – como, por exemplo, a Biblioteca de Alexandria e suas destruições – sou obrigado a admitir que não tinha ideia de que a destruição, a rigor, foram três: um incêndio, as lutas entre cristãos e pagãos em 390 e o aniquilamento definitivo em 641. O autor faz questão de esclarecer que a ênfase que temos, no ocidente, desta última data, do saque promovido por Omar, é uma forma de esquecermos que o fogo não é exclusividade oriental.
Bibliotecas destruídas na Alemanha, no fim da Segunda Guerra; a Biblioteca Nacional de Varsóvia incendiada quando da sublevação da cidade; a Biblioteca de Sarajevo, reconstruída a partir da solidariedade internacional.  Mas é à Biblioteca Nacional que Goulemot dedica dois capítulos, e reconta os papeis que desempenharam seus administradores Julien Cain (1930-1940) e Bernard Faÿ (1940-1944) e a Ocupação. E, apesar de papeis e posturas tão diferentes, o autor conclui, desolado, que o tempo não escolhe entre os bons e os outros, entre os carrascos e as vítimas. Espalha a areia uniformemente.
Goulemot, por outro lado, não cai na ideia fácil da divisão do mundo em bons e maus: como alguém que nasceu em 1937 e viveu na Espanha de Franco nos anos 60/70, tem absoluta noção da colaboração que muitos mantiveram até os últimos momentos da Ocupação alemã, quando então passaram à Resistência “desde sempre”; que Franco concedeu a nacionalidade espanhola a milhares de judeus sefaraditas que, assim, escaparam do gás alemão.
Uma última consideração: tal como Manguel, há aqui um temor em relação à apregoada era do livro digital – a despersonalização e a assepsia que são impostas e a transformação do objeto em conteúdo. A biblioteca como lugar do passeio sem destino. Mas defende a digitalização dos livros fragilizados pelo tempo, ou extremamente raros e insubstituíveis, à imprensa cujo papel envelhece mal. Esta é uma necessidade à qual é preciso se submeter.
Ao final, fica uma certa inveja – nossas universidades não tem as bibliotecas que têm suas equivalentes europeias e principalmente americanas; nossas bibliotecas públicas, com raríssimas (e honradíssimas) exceções – a Biblioteca Nacional e o Real Gabinete de Leitura, no Rio, são as que me vêm à cabeça – mal podem ser chamadas realmente de bibliotecas.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Jorge Luis Borges




O conto da semana é de Borges. Na verdade, assinado por George Loring Frost, e consta do livro Antologia da Literatura Fantástica, organizada por Borges, Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares.

Mas não há referência alguma a Frost na literatura inglesa (ele teria nascido em Brentford, em 1887, e o conto, aparecido em seu livro Memorabilia, de 1923). Muitos adivinharam a brincadeira de Borges, e o tem como o autor do conto El creyente.

Al caer de la tarde, dos desconocidos se encuentran en los oscuros corredores de una galería de cuadros. Con un ligero escalofrío, uno de ellos dijo:

- Este lugar es siniestro. Usted cree en fantasmas?

- Yo no - respondió el otro - Y usted?

- Yo sí - dijo el primero y desapareció.

Outros, no entanto, se referem ao conto como de autoria do inglês. O que você acha?


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

The Sense of an Ending, de Julian Barnes

The Sense of an Ending by Julian Barnes (Knopf Jacket)

Random House
2011
144 p.

What you end up remembering isn't always the same as what you have witnessed.

O livro acaba de levar o Man Booker Prize 2011. Barnes já havia integrado quatro shortlists e agora, finalmente, recebe o mais importante prêmio literário inglês. Li pelo Kindle, e a Editora Rocco ainda não definiu a data da edição brasileira.

History is that certainty produced at the point where the imperfections of memory meet the inadequancies of documentation.

Tony Webster inicia falando de sua juventude, com seus amigos Alex e Colin. Um grupo mediano, “comum”. Na escola conheceu Adrian Finn, um sujeito de classe social bem mais elevada, além de mais inteligente que seus colegas; alguém que já havia lido Camus e discutia abertamente nas aulas de literatura com uma superioridade que impressionava a todos. Nesta época, todos se chocam com o suicídio de Robson, que havia engravidado a namorada – “Sorry, mum”. Mas eles crescem, cada um vai para seu canto e perdem o contato. Adrian, claro, vai para Cambridge.

Mais tarde, Tony inicia um namoro com Veronica, que fica dentro das normas da época – sem sexo completo. Uma viagem desastrosa à casa dos pais da garota – Tony fica absolutamente desconfortável na presença do pai e do irmão de Veronica e jamais se esquecerá desse final de semana – e depois o fim do longo relacionamento. E eis que o inteligente e superior Adrian reaparece, fica com Veronica (que passa a ignorar Tony) e depois, inexplicavelmente, comete suicídio.

It strikes me that this may be one of the differences between youth and age: when we are young, we invent different futures of ourselves; when we are old we invent different pasts for others.

Quarenta anos depois Tony, divorciado, e agora com seus sessenta e tantos anos, passa esse período em revista ao descobrir que recebera um legado de cerca de 500 libras da mãe de Veronica - que ele apenas encontrara na sua desastrada vista à casa da ex-namorada - alem da notícia da existência dos diários de Adrian.

That memory is what we thought we’d forgotten.

Tony redescobre ter enviado uma carta transbordando grosserias para Veronica e Adrian, algo que agora o envergonha. Logo ele, um homem pacato, amigo da ex-esposa, um sujeito verdadeiramente “comum” e que jamais fizera algo contra alguém.

Em menos de 150 páginas, Barnes consegue mostrar culpa e remorso; o passado como um evento incerto e não sabido; os truques que a memória lhe prega. Como Veronica, agora, o assombra: You still don’t get it. You never did, and you never will.

sábado, 15 de outubro de 2011

A Lebre com Olhos de Âmbar, de Edmund de Waal pela Intrínseca

A Biblioteca leu primeiro. A Editora Intrínseca acaba de lançar a edição brasileira de The Hare with Ambar Eyes, de Edmund de Waal, aqui, que nós comentamos aqui.  Como prometido, toda vez que sair a edição brasileira de algum livro comentado aqui, faremos as devidas menções...

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Ludwig Tieck

 



O autor do conto da semana, Ludwig Tieck (1773-1853), é um dos expoentes do Romantismo alemão. Foi tradutor de Dom Quixote para o alemão. A edição brasileira, Feitiço de Amor e outros contos, da Editora Hedra, nova parceira da Biblioteca, foi traduzida por Maria Aparecida Barbosa (que assina também a introdução) e Karin Volobuef.

O conto da semana, O Loiro Eckbert, inicia-se como um conto de fadas (afinal, o Romantismo alemão bebe na fonte destes contos e dos relatos populares, e os revitaliza): uma floresta; pais que rejeitam a filha, Bertha; uma velha e misteriosa mulher que mora isolada de todos dentro da floresta - apenas com um cachorro e um pássaro - e que a acolhe; um mistério que deve ser mantido em segredo –a ave que bota pedras preciosas. É a única proibição imposta pela velha – e com ela, a irresistível vontade de infringi-la. No entanto, ao completar 14 anos, foge do novo lar, com a tal ave: Completei quatorze anos, e é uma desventura para o ser humano o fato de alcançar a razão e, em troca, infalivelmente perder a inocência de sua alma.

É a própria Bertha, esposa de Eckbert, quem conta sua história a Walther, freqüentador assíduo do casal. Ele fica muito impressionado com o relato, e ao final, diz:

- Nobre senhora, agradeço-vos, posso imaginar-vos muito bem com o estranho pássaro e cuidando do pequeno Strohmian.

Mas, como ela conta depois para Eckbert, em nenhum momento falou o nome do cachorro, o que a deixa profundamente intrigada. E, a partir daí, o conto passa por uma transformação; uma série de eventos terríveis irá acontecer, e o ambiente inicial de contos de fadas dará lugar a duas descobertas pavorosas e consequências mortais.

- Estás trazendo meu pássaro para mim? Minhas pérolas? Meu cão? – gritou ela dirigindo-se a Eckbert – Vejas, a injuria causa seu próprio castigo: ninguém senão eu era o teu amigo Walther, teu Hugo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O Colecionador, de Massimo Bontempelli

O conto da semana é do italiano Massimo Bontempelli (1879-1960) e está no volume 9 do Mar de Histórias (Aurélio e Rónai).  Temos a história do barão Raimundo della Valle, que sempre organizou grandes coleções ao longo de sua vida. Mas não se trata apenas de um impulso colecionador patológico; o conto mostra o destaque que os livros tinham na vida do barão – a coleção começou e acabou em razão de algumas leituras.


Pode ser que ao Barão tenha feito falta o zelo do barbeiro e do cura de eliminar da biblioteca de Dom Quixote uma infinidade de livros, tentando evitar aquilo que parecia ter-lhe causado a loucura.

Certo dia lhe ocorreu abrir um volume da coleção de encadernações, a fim de examinar o estado da costura interna. Até então nunca lhe ocorrera abrir esse livro. Era uma edição do século XVI, de Comino, com encadernação autêncita de Viviano di Varese, em couro preto, com gravações a fogo; continha a vida de um capitão do século antecedente.

Os olhos de Raimundo caíram, no princípio de uma página, sobre esse período: “... tíssimo; de fato, ele teve quatro filhos, um natural e três legítimos, posto que se dissesse que um dos três era adulterino, nascido de uma criada (...)

Foi assim que surgiu a ideia de uma coleção de filhos. E o projeto se inicia com o filho natural (com a jardineira), o legítimo, o adulterino (que, presumivelmente, não poderia faltar), o incestuoso (com a cunhada, Irmã de sua esposa), o putativo (isso mesmo). E a coleção parecia completa...

Mas tudo mudou quando, lendo o canto VI da Eneida, deparou-se com os seguintes versos:

Não vês ali aquele audaz mancebo
que naquela hasta pura o braço apoia?
A luz há de ser dado antes de todos:
O primeiro dos filhos que, no Lácio,
Terá de ti Lavínia

Ele providenciará, então, o filho derradeiro...

Raimundo beijou a esposa na testa e foi fechar-se no quarto vizinho. Atraves da parede chegavam-lhe aos ouvidos todos os pequenos rumores: os passos das mulheres que aprestavam as coisas necessárias. Ele também apronta o que era preciso. Estava sentado a uma mesinho, com catálogo secreto aberto diante dos olhos, na sexta folha, em branco. Aguardava o instante, para ficar certo de que o nascimento ia ocorrer de modo normal. E por isso cuidara de não fazer barulho, para não se arriscar a perturbá-lo.

Pronto: é agora; um instante depois seria tarde demais. Ouviu dali o começo de um grito mais forte, o grito que antecede a libertação. Escreveu rapidamente na folha – número 6: póstumo –e vibrou uma punhalada no coração.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Um Filme Falado, de Manoel de Oliveira




Mais uma estreia da Biblioteca: nunca tinha visto nada do cineasta português.

Rosa Maria (Leonor Silveira) e sua filha Maria Joana (Filipa de Almeida) embarcam num cruzeiro de Lisboa a Bombaim, onde irão encontrar o marido/pai, piloto de avião. Rosa é professora de História, e o filme se inicia como uma “aula”, com bela fotografia, e uma série de perguntas da filha, pacientemente respondidas pela mãe. Lisboa, Marselha, Pompeia, Atenas, Istambul e Cairo, um desfile dos grandes centros da civilização ocidental. E também as grandes histórias – as sereias, Ulisses, Vasco da Gama, Dom Sebastião, Napoleão.

O comandante do navio, um americano de origem polonesa (John Malkovich) se reúne com uma famosa cantora grega (Irene Papas), uma empresária francesa (Catherine Deneuve) e uma atriz italiana (Stefania Sandrelli); a presença de mãe e filha em total harmonia no restaurante chama a atenção do grupo e o comandante as convida para se juntar a eles. E é curioso: cada um fala a sua própria língua, e todos se entendem muito bem, uma Babel invertida, em que tudo funciona.

Fica uma sensação nostálgica - e bastante conservadora - da Europa como o grande centro da civilização e como algo que foi bom enquanto durou mas que parece não ter muito futuro. Em certo sentido, lembra algumas obras de autores como Sandor Marai e Stefan Zweig quando tratavam do mundo dominado por Viena e os Habsburgos prestes a ser varrido do planeta. O grupo começa a falar da situação política mundial – as questões envolvendo o petróleo, terrorismo, geopolítica...  Até que um membro da tripulação chama o comandante às pressas para uma notícia terrível.

As Naus, de António Lobo Antunes

AS NAUS

As Naus
António Lobo Antunes
Alfaguara/Objetiva, 2011
182 páginas

Apesar de lançado no Brasil este ano, o livro foi escrito em 1988, quando a hoje questionada União Europeia estava em seus melhores momentos – já havia incluído Portugal, Espanha e Grécia; tudo parecia caminhar incrivelmente bem. Curiosamente, Lobo Antunes oferece uma visão demasiadamente pessimista de seu país – ainda que a história se passe na década de 70, em meio ao processo de descolonização da África. O pessimismo é, no entanto, bastante atual.


Nunca havia lido nada de Lobo Antunes, que no Brasil é o outro time do Fla-Flu que se formou entre os seus admiradores e os de Saramago. Essa disputa, inclusive, nos fez ignorar outros nomes da literatura portuguesa, que só agora começamos a notar.

Em As Naus, há uma infinidade de narradores; da terceira para a primeira pessoa, num mesmo capítulo; o mesmo acontece com a questão temporal – saímos do século XV para o XX em duas ou três frases:

Era uma vez um homem de nome Luis a quem faltava a vista esquerda, que permaneceu no Cais de Alcântara três ou quatro semanas pelo menos, sentado em cima do caixão do pai, à espera que o resto da bagagem aportasse no navio seguinte. Dera aos estivadores, a um sargento português bêbedo e aos empregados da alfândega, a escritura da casa e o dinheiro que trazia, vira-os içar o frigorífico, o fogão e o Chevrolet antigo (...)   - p. 15.

Camões, Pedro Álvares Cabral, Vasco da Gama, Diogo Cão e Dom Manuel não fazem uma viagem no tempo; parecem mais uma assombração, vagando por Lixboa vindos da África. Depois de 500 anos, aqueles que fizeram a glória de Portugal fazem agora o caminho de volta, totalmente anônimos e ignorados – Camões escrevendo Os Lusíadas numa birosca do porto de Lisboa, onde teve a oportunidade de conhecer um sujeito sempre a escrever em folhas soltas de agenda e papéis desprezados um romance intitulado, não se entendia porquê, de Quixote.

No retorno, encontram figuras como Garcia Lorca. Mas, depois de todos esses anos, parece que o que lhes resta é aguardar aquilo que se diz que Portugal espera até hoje – a volta de Sebastião:

(...) Esperámos, a tiritar no ventinho da manhã, o céu de vidro das primeiras horas de luz, o nevoeiro cor de sarja do equinócio, os frisos de espuma que haveriam de trazer-nos, de mistura com os restos de feira acabada das vagas e os guinchos de borrego da água no sifão das rochas, um adolescente loiro, de coroa na cabeça e beiços amuados, vindo de Alcácer Quibir com pulseiras de cobre trabalhado dos ciganos de Carcavelos e colares baratos de Tânger ao pescoço (...) p. 181.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami


Um escritor inglês, James Miller (William Shimell, na verdade um conhecido cantor de ópera que estreia como ator) e uma dona de galeria de arte francesa, Elle (Juliette Binoche, no papel que lhe deu o Palma de Ouro de Melhor Atriz em 2010), que vive há tempos na Toscana, se encontram no lançamento do livro Cópia Fiel.

O encontro dá origem a um passeio, sem grandes compromissos (afinal, ele tem um trem para pegar ainda naquele dia). Numa parada, enquanto James atende a um telefonema, a dona do café pensa que os dois formam um casal – e Elle não se preocupa em desfazer a confusão. A partir daí, os dois passam a atuar como se de fato estivessem casados há anos, e por várias vezes ficamos em dúvida se eles não se conhecem realmente há mais tempo.

Mas confesso que o filme me pareceu um pouco arrastado, especialmente a partir da metade, quando os dois passam a representar o casal que não formam (a cópia fiel?), em que pese Binoche e a fotografia...