sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Luis López Nieves e o segredo de Colombo

 


Alguns historiadores dizem que, em 1491, o frei João Peres de Marchena contou à rainha Isabel de Castela que Colombo já havia estado nas Índias... isso teria decidido a questão em favor do navegador, e a Espanha acabou patrocinando a “primeira” viagem à América. Será que isso, de fato, ocorreu? Sabe-se que os vikings, por exemplo, já estiveram na América do Norte lá pelo ano 1000. Mas o próprio Colombo teria se antecipado à viagem oficial?


O conto da semana é do porto-riquenho Luis López Nieves, e integra a Antologia Pan-Americana organizada por Stéphane Chao. É O Grande Segredo de Cristóvão Colombo.

O conto trata dos dias 11 e 12 de outubro de 1492, que mudariam totalmente o curso da História. Nieves inicia o texto de forma bem tradicional; quase uma descrição da viagem – inclusive os horários de diversos acontecimentos. Somente nos últimos três parágrafos, vemos o tal segredo...

Ao ver as criaturas que irrompiam de repente na praia, os marinheiros se alarmaram e correram para procurar suas espadas. Dom Cristóvão Colombo se aproximou com pressa, ordenou a calma entre seus homens e em seguida caminhou lentamente até os índios assustados. Quando passou diante deles, os jovens o olharam com estranheza, mas o velho, apoiado no braço de um dos rapazes, ajoelhou-se com grande esforço. Depois abaixou a cabeça em sinal de respeito e disse a dom Cristóvão Colombo em voz baixa, em língua que nenhum espanhol conseguiu compreender:
- Mestre, finalmente retornastes!

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Apostas para Outubro

O site da Revista Ler, de Portugal, coloca o sírio Adonis no topo das apostas para o Nobel de Literatura de 2011, a ser anunciado em outubro.


E você? Quem você indicaria e quem você acha que leva?

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O Fantasma e Mário Benedetti



O conto da semana – O dezenove – está na Antologia Pan-Americana, organizada por Stéphane Chao e editada pela Record.

Anos depois da redemocratização, o prisioneiro 19 encontra o Capitão Farías, que o supunha morto, atirado de um avião sobre o oceano, prática comum às ditaduras sulamericanas. Evidentemente, o encontro deixa o militar absolutamente atordoado.

O 19 não quer dinheiro – mas sim conhecer a família do seu incompetente algoz. Quer conhecer as crianças.

- Isso nunca (...) Ora, não me force a assumir uma atitude violente. Não faria bem nem a você nem a mim.
- A mim por quê? Não há nada mais violento que entrar no mar como eu entrei.

O militar se dá por vencido: ambos vão para a sua casa, para o almoço. Conhece as crianças – a esposa já havia falecido. E, para Faría, aquela presença está ali apenas para assombrá-lo.  Chorando muito, grita-lhe: Fantasma!

Ao que o 19 responde:

É óbvio, rapaz. Sou um fantasma. Finalmente me convenceu. Agora limpe o ranho e vá chorar no ombro de sua mulherzinha. Mas não lhe diga que sou um fantasma, porque ela não vai acreditar.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Um poema de Luiz Dias Bahia

Segredos


CENTELHA


Mormaço. Congonhas: os anjos da igreja
suavam nas cinturas obesas.
De pedra-sabão: minha sombra.
Pelo passeio íngreme
despencavam vogais do meu nome.
Beco: janelas nuas, como vento entalhado.
Mas era Chopin quem colhia
mortes agudas no eco desses ou-
vidos idos idos. Ia a rua estreita.
Susto - esquina, sentada
você corava uma simplicidade
vermelha como as entranhas
das pétalas pelo chão. 


(Segredos, Editora LGE, Brasília, 2011)

Vem aí - Reynaldo Bessa



Dia 27 será lançado o livro de contos de Reynaldo Bessa, Algarobas Urbanas, pela Editora Patuá. Mais informações, aqui.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

HHhH, de Laurent Binet



Há sempre uma explicação politicamente correta para alguma monstruosidade: o sujeito matou 300, mas foi abusado na infância, era pobre, rejeitado ou algo que o valha. Mas o mentor da Solução Final não se enquadra neste modelinho. Heydrich era de boa família, amado pelos pais, tinha amigos, dinheiro, cultura; era violinista, pianista e esgrimista – e resolveu entrar para a História como o carrasco de Praga.

HHhH – acrônimo de Himmlers Him heiBt Heydrich (o cérebro de Himmler chama-se Heydrich) -  é o título do primeiro romance de Laurent Binet, que com ele ganhou o Goncourt de estreante em 2010. Jozef Gabcik, eslovaco, e Jan Kubis, tcheco, são os paraquedistas encarregados de assassinar o alemão que, contudo, é o grande personagem do livro.

Falar que HHhH é um romance histórico não parece suficiente. Binet vai para uma zona cinzenta entre o ensaio e a ficção. São inúmeras as referências que faz ao longo das mais de 400 páginas – de Kenneth Branagh a Chaplin, de Robert Merle a Jiri Weil, de quem nunca ouvi falar, mas me interessei por um livro chamado Mendelsshon no Telhado...

Le roman tire son titre du premier chapitre qui se lit presque comme une histoire-drôle: des ouvriers tchèques sont sur le toit de l’Opéra, à Prague, pour déboulonner une statue de Mendelssohn, le compositeur, parce qu’il est juif. C’est Heydrich, épris de musique classique et récemment nommé protecteur de Bohême-Moravie, qui a donné l’ordre. Mais il ya a toute une rangée de statues et Heydrich n’a pas precise laquelle était Mendelssohn. Or, à part Heydrich, il semble que personne, même parmi les Allemands, ne soit capable de le reconnaître. Mais personne n’oserait déranger Heydrich pour ça. Le SS allemande qui supervise l’opération decide donc d’indiquer aux ouvriers tchèques la statue qui a le plus grand nez, puisq’on cherche un Juif. Mais catastrophe: c’est Wagner qu’on commence a déboulonner!

Em mais de 250 capítulos, quase sempre com no máximo três páginas cada, o romance é também um romance sobre a gênese e o desenvolvimento do próprio livro:

Je ne me souviens pas exactement quand mon père m’a parlépour la première fois de cette histoire, mais je le revois, dans ma chambre de HLM, prononcer les mots de “partisans”, “tchécoslovaques”, peut-être “attentat”, très certainement “liquider”, et puis cette date: “1942”. J’avais trouvé dans as bibliothèque une Histoire de la Gestapo, écrite par Jacques Delarue, et commencé à em lire quelques pages. Mon père, me voyant ce livre à la main, m’avait fait quelques commentaires en passant: il avait mentionné Himmler, le chef de la SS, et puis son bras droit, Heydrich, protecteur de la Bohême-Moravie. Et il m’avait parlé d’um commando tchècoslovaque envoyé par Londres, et de cet attentat. Il n’en connaissait pas les détails (et je n’avais de toute façon guère de raisons de lui en demander, à l’époque, cet événement historique n’ayant pas encore pris la place qu’il a maintenant dans mon imaginaire) mais j’avais senti chez lui cette légère excitation qui le caractérise lorsqu’il raconte (en general pour la centième fois, car, déformation profissionnelle ou bien simple tendance naturelle, il aime à se repeter) quelque chose qu’il a frappé d’une façon ou d’une autre, Je ne crois pas que lui-même ait jamais eu conscience de l’importance qu’il accordait à cette anedocte car lorsque je lui a parlé, récemment, de mon intention de faire un livre sur le sujet, je n’ai senti chez lui qu’une curiosité polie, sans trace d’émotion particulière. Mais je sais que cette historie l’a toujours fasciné, quand bien même elle n’a pas produit sur lui une impression aussi forte que sur moi. C’est aussi pour lui rendre cela que j’entreprends ce livre: les fruits de quelques mots dispenses à um adolescent par ce père qui, à l’époque, n’était pas encore prof d’historie mais qui, em quelques phrases mal tournées, savait bien la reconter. L’Historie.

Temos então ao mesmo tempo a narrativa da Operação Antropóide – a decisão pela operação, a escolha dos dois agentes, sua recepção em Praga pela resistência local e o assassinato de Heydrich - e outra, sobre a elaboração do romance, e sabemos, por exemplo, que o editor preferiu o título impronunciável àquele preferido pelo autor (“muito ficção científica”, alegou).

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O Menino que vendia palavras



No domingo, com as crianças, no Espaço Oi Futuro, em Belo Horizonte, assistimos à peça O Menino que Vendia Palavras, dirigida por Cristina Moura e com Eduardo Moscovis, baseado no premiado livro de Ignácio de Loyola Brandão.


Com produção caprichada e bom elenco, assistimos à história de um menino que tinha orgulho do pai, que considerava o mais inteligente do mundo, que sabia de tudo. Seus amigos o invejavam, e sempre que queriam saber o significado de uma palavra, recorriam ao pai do menino. Até que um dia ele resolve “cobrar” pelos significados – troco o significado de gorgolão por uma fotografia de um navio de guerra, pantomina por um chiclete e por aí vai. 


E vimos também a decepção do menino ao descobrir o óbvio - que ninguém sabe tudo, nem mesmo seu idolatrado pai...

Na peça, as crianças perguntam o significado de outras palavras que lhes dessem na telha. Ao final, elas são convidadas ao palco para ler livros infantis.

Livro e peça feitos para crianças, tratadas com inteligência, e que os pais acompanham sem o menor sacrifício – algo que, admita-se, vem se tornando cada vez mais raro. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Conto da semana - Pablo de Santis

O conto da semana foi tirado do blog do escritor argentino Eduardo Berti – que será um dos próximos a aparecer por aqui. É um microconto de Pablo de Santis, e integra seu livro Rey Secreto. De Santis fala no blog da Revista Microrrelatos sobre essa forma de conto.

Napoleón conocía el nombre de cada uno de los soldados de su ejercito. Una mañana vio a veite metros sobre la nieve a uno de sus hombres. Era un oficial de caballería. Intentó recordar su nombre, pero su memoria le falló. Al instante, uma bala enemiga se hundió en el pecho del oficial. Napoleón comprendió de inmediato la razón de su olvido.

La Règle du Jeu (1939), de Jean Renoir


André Jurieux (Roland Toutain) é um aviador que acaba de bater um recorde de travessia atlântica, ainda que quase dez anos depois de Linderbergh; ao ser entrevistado, a primeira coisa que diz é que nada daquilo valeu a pena – Christine não estava lá para recebê-lo.

O problema é que Christine (Nora Gregor) é a esposa do Marquês de la Cheyniest (Marcel Dario). Não que seja uma surpresa para o marquês – o casal está em casa, ouvindo a cobertura da chegada de André pelo radio e isso fica bem claro – de forma jocosa, inclusive.

Octave (o próprio Renoir) é o melhor amigo de André, e também disputa Christine - tem a grande vantagem de flanar habilmente entre a criadagem e os patrões. É, na verdade, o grande personagem do filme...


O marquês resolve convidar ilustres membros da sociedade para um fim de semana de caça – e obviamente convida André. E a partir daí o filme se mostra pesadamente crítico em relação à sociedade francesa (não à toa, foi proibido pela censura militar francesa – a guerra começou apenas alguns meses depois – e pelos nazistas durante a ocupação). Na propriedade do casal, La Colinière, com a guerra já batendo às portas da França, os convidados se divertem caçando lebres e faisões.


Na bela casa, os convidados não poderiam ser mais promíscuos; os criados vivem num mundo à parte – Lisette, por exemplo, não consegue se separar de Christine.  Esta, ao resolver abandonar o marido, não consegue se decidir entre André e Octave. As tensões crescem ao longo dos 110 minutos de duração, e por fim temos o desfecho trágico de André...

Em 2001, Robert Altman homenageou o filme e o diretor, com seu Assassinato em Gosford Park – apesar do título em português, fiel ao original: o assassinato em questão não é o tema central de nenhum dos dois – mas sim a crítica à sociedade da época (na verdade, de todas as épocas).

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Iulian Ciocan: A Escrava Isaura em Chisinau

O conto da semana integra a coletânea Best European Fiction 2011. Iulian Ciocan traz uma curiosa história chamada Auntie Frosea. Na Moldávia no final dos anos 80 as mudanças políticas são traduzidas pelas... novelas brasileiras! Frosea não perde por nada um único capítulo de sua A Escrava Isaura, o grande sucesso da TV soviética. Desde o outono de 1988, quando estreou, sua vida mudou completamente – a começar, pela sua dor de dentes, que simplesmente desapareceu.

Para ela, a novela traz uma paisagem colorida – em contraposição ao cinza de seu país – e uma realidade triste – afinal, há escravos no Brasil. Em Chisinau, a vida pode ser cinza, como o prédio em que mora, um daqueles monstruosos blocos de apartamentos construídos nos anos 50, mas, certamente, não há escravidão... Pobre Isaura, repete. Sua amiga, Olga, não é tão deslumbrada – para que serve uma liberdade que não me permite ir além do Kosovo, provoca. Não tenho dinheiro para ir ao Brasil e, se tivesse, as autoridades não me deixariam ir.

Logicamente, Frosea protesta – você não sabe o que é ser escrava! Outras pessoas à sua volta começam a discutir – todos seremos escravos de Leoncio, com esse Gorbachev a serviço dos americanos!

Na cabeça de Frosea, os escravos de Leoncio jamais poderiam sonhar com salários e pensões, por pior que fossem, como na Moldavia. Um dia tudo iria melhorar para Isaura. Mas, nesse mundo colorido e vibrante do Brasil, como havia lugar para algo tão terrível como a escravidão?

O problema é que, um belo dia, Frosea descobre que não há mais escravos no Brasil, e que Isaura e Leoncio pertencem a um mundo que já não existe mais. O que, para Frosea, se mostra algo intolerável – Isaura tinha que pertencer ao seu mundo – é o que o torna mais suportável, afinal. Elas tinham que continuar a sofrer “juntas”.

Auntie Frosea couldn’t bear to see her slave go free.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A Verdadeira Vida de Sebastian Knight, de Vladimir Nabokov



The Real Life of Sebastian Knight
Tradução de José Rubens Siqueira
Editora Objetiva/Alfaguara, 195 páginas
2010

Posso, portanto, declarar que a manhã do nascimento de Sebastian foi uma bela manhã sem vento, com doze graus (Reaumur) abaixo de zero... isso é tudo, porém, que a boa dama achou digno de registrar. Pensando melhor, não consigo ver nenhuma necessidade de concordar com seu anonimato. Parece loucamente impossível que ela algum dia venha a ler este livro. Seu nome era e é Olga Olegovna Orlova – uma aliteração ovóide que seria uma pena esconder.
Seu relato tão seco não consegue transmitir para o leitor não viajado as delícias implícitas num dia tal como ela descreve em São Petersburgo ; a pura luxúria de um céu sem nuvens destinado não a aquecer a carne, mas exclusivamente ao prazer dos olhos (página 7)

Stanislaw Lem escreveu um livro (que não li) chamado Vácuo Perfeito, uma coletânea de resenhas de livros que jamais foram escritos. Jorge Luis Borges, em Ficções, também trata com profundidade de livros que somente existiram na sua própria cabeça.

É neles que se pensa quando se termina A Verdadeira Vida de Sebastian Knight, de Vladimir Nabokov, o primeiro escrito em inglês (1941). Knight é um escritor consagrado e que morre repentinamente, ainda jovem. O Sr. Goodman (ironia...) escreve uma biografia demasiadamente crítica – A Tragédia de Sebastian Knight -; em resposta, V. (essa é a única pista que temos do narrador, meio-irmão do escritor) resolve escrever a sua “verdadeira” biografia:

O método do Sr. Goodman é tão simplório como sua filosofia (...) Mas ele está inteiramente errado em pensar que descobriu alguma coisa uma vez forçada a fechadura. Não que eu queira sugerir que o Sr. Goodman pense. Ele não conseguiria, nem que tentasse. O livro dele se ocupa apenas com ideiasque provaram (comercialmente) atrais mentes medíocres (p. 62)

Evidentemente, Knight é um personagem fictício; o interessante – e aí chegamos a Lem e a Borges – é que “seus” livros são detalhados por V. (que fala, por exemplo, de Propriedade Perdida, O asfódelo duvidoso, Sucesso, A Montanha Engraçada).  Podemos acompanhar a "obra" do grande escritor. Na reconstituição de sua vida, a infância na Rússia (nasceu em 1899, tal como Nabokov); foi criado na Inglaterra e se tornou um escritor de sucesso; seus problemas com o novo idioma. 

Em determinado momento, o tom do livro muda, e o leitor passa a acompanhar a investigação de V para descobrir quem, afinal, foi sua última amante, russa. Cercado de pistas incertas, assume então um papel de verdadeiro detetive.

Para muitos, é o melhor romance de Nabokov, que se alinha a escritores do leste europeu que passaram a escrever em inglês (como Conrad no século anterior e Hemon no seguinte). Não por acaso, Nabokov é talvez o escritor predileto de Aleksandar Hemon.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O conto da semana, de Italo Calvino



O conto da semana é novamente de Calvino – Quem se contenta – e integra Um General na Biblioteca:

Havia um país em que tudo era proibido.
Ora, como a única coisa não-proibida era o jogo de bilharda, os súditos se reuniam em certos campos que ficavam atrás da aldeia e ali, jogando bilharda, passavam os dias.
E como as proibições tinham vindo paulatinamente, sempre por motivos justificados, não havia ninguém que pudesse reclamar ou que não soubesse se adaptar.
Passaram-se os anos. Um dia, os condestáveis viram que não havia mais razão para que tudo fosse proibido e enviaram mensageiros para avisar os súditos que podiam fazer o que quisessem.
Os mensageiros foram àqueles lugares onde os súditos costumavam se reunir.
- Saibam – anunciaram – que nada mais é proibido.
Eles continuaram a jogar bilharda.
- Entenderam? – os mensageiros insistiram – Vocês estão livres para fazerem o que quiserem.
- Muito bem – responderam os súditos – Nós jogamos bilharda.
Os mensageiros se empenharam em recordar-lhes quantas ocupações belas e úteis havia, às quais eles tinham se dedicado no passado e poderiam agora novamente se dedicar. Mas eles não prestavam atenção e continuavam a jogar, uma batida atrás da outra, sem nem mesmo tomar fôlego.
Vendo que as tentativas eram inúteis, os mensageiros foram contar aos condestáveis.
- Nem uma, nem duas – disseram os condestáveis – Proibamos o jogo de bilharda.
Aí então o povo fez uma revolução e matou-os todos.
Depois, sem perder tempo, voltou a jogar bilharda.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

As Fantasias de Pronek, de Aleksandar Hemon


Traduzido por Roberto Grey

Editora Rocco
2009
232 páginas

Jozef Pronek nasceu na maternidade de Sarajevo a 10 de setembro de 1967, depois de um excruciante trabalho de parto de 37 horas, cujo apogeu foi o juramento de sua mãe, quando a cabecinha de Jozef estava encalhada entre suas pernas, a meio caminho do mundo, de que ela o estrangularia com suas próprias mãos se ele não saísse imediatamente. Sua mãe se arrependeu da ameaça assim que viu sua cara amassada, dominada por uma boca que berrava, como num quadro expressionista. No seu delírio, ela achou-a extraordinariamente bela.

Foi a mesma cara expressionista exibida para o pai de Jozef, que estava do lado de fora, no ensolarado parque da maternidade, apinhado de pais embriagados. Pronek Senior conseguiu ficar de pé, apoiado por seu amigo Dusko, com quem ele comemorava a chegada de seu filho neste triste mundo. Ao ver seu rosto furioso e amarrotado, o pai comparou-o, num momento de grande inspiração, ao notório Tshombe, o homem que matara Patrice Lumumba. Dusko, por outro lado, descobriu que o recém-nascido Jozef se parecia com Mahatma Gandhi, talvez em virtude de uma tira de gaze amarrada em torno de seu tórax diminuto. Da parte do pequeno Jozef, tudo de que se lembra (coisa que continua insistindo em afirmar) daquele dia – o primeiro de uma série ainda inconclusa de dias que constitui a vida – foi um pavoroso dilúvio de luz ofuscante que chegou até ele através da vidraça da janela, como se a primeira coisa que tivesse visto fosse uma explosão atômica. (p. 35)

Aleksandar Hemon nasceu na Bósnia e desde 1992 vive nos Estados Unidos. Estava na América para um congresso quando estourou a Guerra da Bósnia, viu-se impedido de retornar ao seu país - numa entrevista, disse que simplesmente por não querer morrer, tendo sofrido por muito tempo de culpa por ter sobrevivido quando tantos morreram. Desde então vive em Chicago. Sempre que se fala em Hemon, lembra-se de outros escritores estrangeiros que adotaram o inglês como língua de expressão – Conrad e Nabokov (que ele afirma ser um de seus autores favoritos). A comparação é inevitável.
  
O domínio que Hemon tem da língua inglesa é muito superior ao de Pronek, que vive falando errado e se irritando com as constantes correções. Mas a sensação de não pertencer a lugar algum é clara – como quando um sérvio, ao saber que ele é bósnio, lhe pergunta: sérvio ou muçulmano, ao que responde – sou complicado. 

O narrador o reconhece numa visita por um emprego numa escola de línguas – Pronek está numa classe falando sobre um texto sobre irmãos siameses. Imediatamente, recorda-se de conhecê-lo – e passa a narrar a sua história, de sua infância em Sarajevo, passando pelo seu encontro com Bush (pai) em Kiev (que o confunde com um ucranian – Pronek ainda responde que aquele não é o seu país; que ele é da Bósnia, mas não adiantou...), a militância no Greenpeace e Chicago, trabalhando para um detetive particular.

A semelhança com a própria biografia já levou a várias referências ao romance como autobiográfico, uma "autobiografia em terceira pessoa", algo que Hemon sempre nega - no máximo, diz, uma biografia paralela, algo que ele poderia ter sido, mas definitivamente não foi.