sábado, 27 de agosto de 2011

Daniil Harms

O site português Poesia & Lda merece uma visita constante. O texto abaixo é de Daniil Harms, pseudônimo de Daniil Ivanovich Yuvachev (1905-1941):


CADERNO AZUL Nº 10


Era uma vez um homem ruivo, sem olhos nem orelhas. Também não tinha cabelos, e só por convenção lhe chamávamos ruivo. Não podia falar porque não tinha boca. E nariz também não. Nem sequer tinha braços e pernas. Também não tinha barriga, nem coluna vertebral, nem mesmo entranhas. Não tinha coisa nenhuma! Por isso pergunto de quem estamos nós a falar. Desta forma é preferível nada acrescentarmos a seu respeito.


Ravel e Bozzetto

A História do Mundo, em 13 minutos. Da série Allegro non Troppo. 

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O cerco, de Martín Kohan

O conto da semana integra a antologia Os Outros: narrativa Argentina contemporânea, organizada por Luis Gusmán e publicada pela Iluminuras (tradução de Wilson Alves Bezerra). Martín Kohan (n. 1967) é o autor de O Cerco.

O narrador, Vidal, é membro das tropas do comandante Centurión, que acabam de chegar às muralhas da cidade de Santa Bárbara, defendida pelo general Montana. Inicia-se o cerco à cidade, mas não há sinais de combate:

Seria um erro gravíssimo, indigno dos dotes estratégicos do general Montana, sair à batalha em terreno aberto: não poderia ter outra sorte neste caso a não ser sucumbir. Montana aposta, isso é evidente, na única possibilidade que lhe permite abrigar alguma esperança, por incerta que seja: trata de sustentar sua posição defensiva dentro da cidade.

E surge o impasse – as duas partes ficam em posição de espera. O sítio é a forma de levar a cidade, localizada em elevação, à queda, num cerco sem falhas. Este é o caminho da vitória, diz o comandante.

Só nos resta esperar. Um cerco é, basicamente, uma questão de paciência. No entanto, começam a passar os dias: todos iguais (...) Não acontece nada: a cidade de Santa Bárbara permanece igual a si mesma.

A espera e o silêncio do comandante começam a causar inquietação na tropa, que apesar disso atua com esmero na realização do cerco perfeito. No décimo dia do cerco, alguém de dentro levanta uma bandeira branca; é um garoto, Julián.

Não vai ser necessário, ele diz, derramar o sangue de ninguém (...) O general Montana, diz, está agonizando. Não resta a ele muito tempo de vida. A cidade está decidida a se render, mas quer salvar a honra de seu general e portanto não vai apresentar a rendição enquanto ele estiver com vida.

O comandante diz que vai considerar a notícia, e o garoto retorna à cidade. A rendição é fato.

Três dias depois, novamente Julián aparece: o general está nas últimas, não dura mais uma semana. No dia seguinte: o general piorou gravemente. Seu estado é irreversível; já há quem defenda a rendição imediata. Sua mulher tem 19 anos e bonita. E com freqüência, a visita do mensageiro se repete, e o infeliz teima em não morrer.

O comandante começa a ficar angustiado, sem saber se não estaria sendo solenemente enganado. Alguns dizem que Montana já está morto, e que o médico mente apenas para ganhar tempo, diz Julián.

Por fim, a irritação de Centurión o leva à decisão de invadir a cidade. Vidal lembra as possibilidades de um insucesso, e a perda de toda a vantagem dos invasores, algo que o comandante já não está levando em consideração. A insistência o leva a ser preso: decidiu me aplicar uma sanção de três dias de detenção. Diz que a causa é ter desobedecido a uma ordem: a de calar a boca. Diz também que a aplicação do castigo fica suspensa até depois de termos tomado a cidade de Santa Bárbara. Mas isso, diz, de toda forma, vai ocorrer amanhã, amanhã ao amanhecer. A propósito, Vidal, diz, quero estar a caráter com a entrada triunfal à cidade. Ordeno que você me prepare o uniforme de gala.

A noite se torna curta para mim, ocupado com esta tarefa: eliminar até a menor ruga do paletó azul do comandante, lustrar os botões dourados até deixá-los tão brilhantes como um amanhecer.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

The Hare with Amber Eyes, de Edmund de Waal



Edmund de Waal é um ceramista inglês, que até então não havia se arriscado nas letras. O sobrenome esconde sua origem – é descendente da outrora poderosa família Ephrussi, que até a Segunda Guerra rivalizava com os Rothschild.

O fato de ter recebido uma coleção de 264 miniaturas japonesas o levou a pesquisar como esses objetos chegaram à sua família, e como passaram por diversas gerações. E assim, surge uma história de uma família desde Charles Ephrussi (patrono e primeiro grande colecionador de quadros de impressionistas como Manet e Renoir) até o presente.


Em Paris, Charles Ephrussi adquiriu a coleção numa época em que o Japão despertava enorme fascínio entre os parisienses no final do século XIX. No entanto, o clima a partir da Questão Dreyfus o levou a alguma cautela, e seu “gosto” foi direcionado para a arte francesa do século anterior – uma boa pedida para um judeu demonstrar seu senso de nacionalidade numa época em que sobre eles recaía a suspeita de traição em favor da Alemanha...

E assim, a coleção é transformada em presente de casamento do primo Viktor, de Viena. Os judeus haviam obtido a igualdade de direitos em 1867; o Imperador era uma garantia – não tolerava os pogroms. Com sua morte, em 1916, as coisas começam a mudar.


Acompanhamos o início e o fim da Primeira Guerra, com os primeiros sinais de antissemitismo explícito; Hitler e o fim de tudo, com a anexação da Áustria pelos nazistas. De Waal mostra a mudança de clima e o início das leis raciais – o Palácio Ephrussis, na Ringstrasse, Viena, é naturalmente expropriado pelos nazistas austríacos (Viktor é espancado pelos oficiais que entram na sua residência, quebrando tudo, e acaba “cedendo” todos os seus bens). Mas consegue sair do país - no passaporte, autorização de “ida sem retorno” - e parte para a Inglaterra com a filha Elisabeth e seu marido, o holandês Hendrik de Waal. Apenas com uma pequena mala. Sem a coleção.

Seu filho Iggie, que havia se mudado para Nova York antes do pai, se alista no exército americano, e se destaca no setor de inteligência. E, quando o conflito acaba, encontra-se com Anna, antiga empregada no Palácio Ephrussi (agora sede dos aliados na Viena ocupada) – ela havia guardado a coleção no dia da invasão da propriedade. Os austríacos que expropriaram os judeus eram agora cidadãos respeitados; a Áustria se assumiu como vítima dos alemães, e não como ativa participante do regime – algo que De Waal critica com ênfase. Sobre Anna, não se sabe mais nada – sequer seu sobrenome, nem o que lhe aconteceu depois do encontro...

Iggie se muda para o Japão; é dele, o tio-avô, que Edmund recebe a coleção, que agora está em sua casa, em Londres.

Segundo Edmund, para conciliar o trabalho de ceramista com a pesquisa, e ao mesmo tempo continuar casado e com seus três filhos, dedicava-se ao livro das 10 da noite às 2 da manhã – o que, por coincidência, é o horário em que costumo escrever...

Mais um livro que deve ser aguardado por aqui. Alguma editora se habilita?

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Dvorak e Bruno Bozzetto



A série Allegro non Troppo criada por Bruno Bozzetto sobre algumas composições da música clássica vale uma conferida. Aqui, a Dança Eslava nº 7 de Dvorak.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Thomas Bernhard e o imitador de vozes

O conto da semana é de Thomas Bernhard, que integra o livro de mesmo título (Companhia das Letras, 2009, traduzido por Sergio Tellaroli):

Convidado de ontem à noite da Sociedade Cirúrgica, o imitador de vozes, depois de se apresentar no Palais Pallavicini a convite da própria Sociedade Cirúrgica, já havia concordado em se juntar a nós na Kahlenberg para, sempre ali, na colina onde mantemos uma casa sempre aberta a todas as artes, apresentar seu número, naturalmente não sem o pagamento de cachê. Entusiasmados com o espetáculo a que tínhamos assistido no Palais Pallavicini, pedimos ao imitador de vozes, natural de Oxford, na Inglaterra, mas que freqüentou escola em Landshut e exerceu de início a profissão de armeiro em Berchtesgaden, que, na Kahlenberg, não se repetisse, mas apresentasse algo inteiramente diferente daquelas imitadas no Palais Pallavicini, o que ele prometeu fazer. E de fato o imitador de vozes imitou na Kahlenberg vozes inteiramente diferentes daquelas apresentadas na Sociedade Cirúrgica, algumas mais, outras menos famosas. Pudemos inclusive fazer pedidos, aos quais o imitador de vozes atendeu com a maior solicitude. Quando, porém, no final, sugerimos que imitasse sua própria voz, ele disse que aquilo não sabia fazer.

Vem aí - Edison Veiga


Dia 25 de agosto, será lançado o romance do jornalista do Estadão, Edison Veiga. Maiores informações, aqui.

Noel Coward



Num lugar em que se é obrigado a aturar 30ºC no inverno e a se vestir como se trabalhássemos no Canadá, uma música para cantar enquanto cozinhamos na rua...

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Anita Konkka e O Palhaço

Meu pai mentia todos os dias e foi muito bem sucedido. Tornou-se um membro do Partido e um alto funcionário do Ministério da Cultura. Mas minha avó, que considerava a mentira um pecado, passou um tempo num campo de concentração de Stalin.

São as memórias de Albertina Vinniyeva, personagem do conto da semana, The Clown (O Palhaço) da finlandesa Anita Konkka (da antologia Best European Fiction 2011, organizada por Aleksandar Hemon). Sua profissão: palhaça. Mais precisamente, a famosa palhaça Milopa.

Achava-se uma espécie de Picasso desta arte. Mas ninguém sabia que eu era uma mulher. As pessoas achavam que eu era um homem fazendo o papel de uma mulher. Talvez por isso eu fosse um palhaço tão bom. (...) Eu era a famosa Milopa e porque o jornal disse que eu era um bom comediante. As pessoas não acreditam em seus olhos e ouvidos, mas sim nos jornais, essa é a razão de ser tão fácil enganá-las.

Um dia, antes de uma apresentação, ficou paralisada e sem voz; movia apenas os olhos. Ficou em estado catatônico por um mês. Nunca mais voltou ao palco.

E então decide escrever suas memórias, atendendo ao pedido da Gallimard.  Desde os quinze anos queria ser palhaça de circo, algo que não agradava muito sua mãe, preocupada com as dificuldades de uma vida itinerante. Já o seu irmão, que queria ser motorista, acabou advogado... Quanto a Albertina, ao terminar a escola, foi admitida na escola do Circo de Moscou - seu pai era o diretor e providenciou tudo...

A única pessoa que sentia atração por ela era o domador de leões, que era tão bêbado que qualquer uma lhe pareceria bela. Em algumas manhãs meu rosto era terrível, como se estivesse com uma tremenda dor de dente, e a sombra do meu nariz é maior que o normal. Mas o que uma pessoa pode fazer com seu nariz quando seu avô se chama Israel e seu pai Isac?  Ela era, além de muito feia, a única mulher no curso de palhaço e talvez a pior aluna da história da escola, mas pela posição do meu pai, não fui expulsa. Apresentou uma tese sobre os elementos marxistas na arte de palhaço.

Começou a carreira como palhaço de terceira classe, em Murmansk. Mas não atuava como queria – ela tinha que ser um palhaço gordo, estúpido e de nariz vermelho, o que não fazia o meu estilo, já que eu era mais o tipo do pequeno Pierrot. O diretor do circo dizia que o povo não entendia o estilo elitista francês de comédia. A arte do palhaço é proletária, dizia.

Depois de um ano, o diretor do circo disse que ela não tinha o menor talento. Trabalhou então como auxiliar em um hospício, guarda de pinturas do Museu Puschkin, assistente da Biblioteca Lenin etc. Com a ajuda do pai, virou tratadora de coelhos do Grande Circo de Moscou e depois como assistente nos números de palhaços. E, com a última grande colaboração paterna (o pai doente queria que ela desertasse), iniciou um tour internacional. Em Milão, finalmente, consegue escapar:

Pela primeira vez em minha vida, pude respirar com liberdade e ser eu mesma. Os italianos gostaram do meu humor e me receberam bem; puderam ver minhas melhores performances (...) Na Alemanha eu percebi que as pessoas também mentem no ocidente. Fiquei muito surpresa, por que razão elas tinham que mentir? Elas não têm problemas em dizer a verdade como no meu país. 

Por fim, ela avisa que precisa de vinho para realmente começar a escrever suas memórias.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Sentimento do Fim do Mundo, de Willian Delarte





Editora: Patuá
ISBN 978-85-64308-07-7
132 páginas
2011


Este post inaugura a primeira parceria da Biblioteca, com a Editora Patuá, de São Paulo. É uma oportunidade para conhecer a produção literária brasileira contemporânea.

Willian Delarte inscreve seu nome, com seu Sentimento do Fim do Mundo, entre os autores brasileiros da novíssima geração. Dialoga com Carlos Drummond de Andrade, com quem chega a ter uma “conversa” logo no início. Se em Sentimento do Mundo (1940), Drummond cuida de um mundo prestes a entrar em guerra (os poemas foram escritos entre 1935 e 1940), o Fim do Mundo está igualmente sintonizado com o nosso tempo – e Delarte já o avisa: entramos todos no Mundo virtual que é global, que é individual, que é tudo o que pregam nossos profetas.

Redes sociais de comunicação, da ciência do consumo eterno, do espírito diminuto globalizado, prossegue. Em Inicialização Operacional Homem Digital 1.0, vê um elemento – justo o único elemento humano -  que teima em não ser “baixado”; em Emergência, esse mesmo elemento é elevado a palavra de ordem. Tal como Drummond, permanece a preocupação com os rumos que tomamos.

No poema de Drummond, tenho apenas duas mãos/e o sentimento do mundo/ mas estou cheio de escravos/ minhas lembranças escorrem/ e o corpo transige/ na confluência do amor.
No Fim do Mundo o poeta não tem mais escravos, mas carrega todas as suas dores e cicatrizes, o peso de todas as lembranças do mundo. Prevalece o olhar pessimista e melancólico, que também é notável em outros versos, como em Minha Inscrição:
Vermes insaciáveis a me consumir
num tom solene de despedida,
trar-me-ão a certeza de que tanto fugi:
de que nada valeu
e que a vida é sempre
conta vencida
Como afirma Monica Simas no prefácio, são versos brutalmente belos.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

L'Étranger, de Albert Camus


Ler Albert Camus é, para quem está estudando francês, uma oportunidade de ler no original um autor moderno, com uma linguagem mais próxima daquela usada hoje. E é, também, uma oportunidade de ler um dos clássicos do século XX. 

Camus (1913-1960) nasceu na Argélia e ganhou o Nobel de Literatura de 1957 (como um autor francês “não-metropolitano”, de acordo com a Academia Sueca).

É um livro conciso (a edição brasileira da Record tem cerca de 130 páginas); seus personagens não são muito desenvolvidos e são, acima de tudo, pessoas comuns. O enredo é conhecido até por quem não o leu. Mersault, o personagem central, é  um indiferente: foi assim que recebeu a notícia da morte de sua mãe; foi assim que foi ao cinema logo depois do enterro e mesmo quando comete o assassinato de um árabe. Sua condenação também não o altera. Ele não tem nenhuma vontade ou ambição – ele até aceita se casar, já que faria Marie feliz - mas simplesmente assiste ao passar dos dias...

Sua condenação se dá muito mais (quase exclusivamente) pela sua indiferença chocante em relação à mãe do que pelo assassinato em si. Ele não chorou a morte da mãe, é um estranho dentro da sociedade. Como muitos afirmam, ele é condenado por não seguir as regras do jogo – nossa sociedade.

Uma versão para o cinema foi dirigida por Visconti, com Mastroiani no papel de Mersault. A escolha do ator foi criticada na época por não parecer adequada ao personagem. Luiz Carlos Merten fala que a preferência de Visconti era por Alain Delon, bem como a transposição da história para a década de 60, algo que a viúva de Camus não admitiu.

Sobre Camus, ainda, acaba de sair na imprensa uma tese de que sua morte não teria sido acidental. A suspeita recai sobre a KGB, diante das críticas que o autor fez à União Soviética, como pode ser lido na página do jornal The Guardian

domingo, 7 de agosto de 2011

Um poema de Willian Delarte

ÓBITO

Decretou-se naquele dia
o fim súbito da poesia

O único poeta em cena
jamais havia escrito,
cantado, ouvido, lido,
sequer um poema,

e nada mudou...

Na memória dos que um dia
visitaram qualquer linha
restou rastros de azia
e a incerteza de um triste fonema
que se perdia
e nada dizia

Enterrado vivo,
um verso nunca lido
dizia que o poema,
enfermo de enfisema,
ressuscitaria,

mas na missa do sétimo dia
um padre lingüista
comungou num pobre latim
a imprestabilidade da poesia;

encomendou a Homero,
Virgilio e Verlaine,
o defunto indigente:

“que tirasse da nossa mente
todo ruído
ou palavra indecente
que tivesse mais de um sentido”

Por isso, naquele dia
o Homem forte se fazia:

sem tal patologia,
bebia a sorte
da morte que não sentia.

(Sentimento do Fim do Mundo, Editora Patuá, 2011)

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O Pecado do Padre Ondrej, de Jaroslav Hasek (uma história para ler na faculdade de direito)

O conto da semana é novamente de Jaroslav Hasek.

O padre Ondrej completava dezoito anos no Purgatório, sem saber o porquê. Seu caso ainda não havia transitado em julgado, e ele vivia perguntando aos Anjos a razão de sua permanência. Um dia, peticionou à Honorável Corte do Último Julgamento, que respondeu que o seu caso não estava previsto para os próximos anos...

Anos se passaram. Um belo dia, recebeu uma intimação para comparecer ao Sagrado Senado. Lá chegando, ouviu uma voz: “Estamos estudando o Livro da sua vida. Tudo está bem, com exceção de uma página... Eu te pergunto: você tem um irmão na Austrália?”

“Sim”, respondeu. O Senado insistiu, com a solenidade peculiar – você escreveu para ele?, ao que respondeu afirmativamente – para Sydney, em 1882.

Então, foi dito que, de acordo com De Retractione vel Librorum Recensione, Santo Agostinho proclama que a crença nos antípodas é uma heresia; como a Austrália é parte dos antípodas, acreditar na sua existência é heresia, cometida e confirmada pelo réu. Evidentemente, foi destacado na sentença, o estado de purificação do acusado é uma atenuante. E foi sentenciado a 15.000 anos de confinamento no Purgatório, o que incluiu seus 22 anos de detenção investigativa.

Os Anjos o consolaram: isso poderia ter te acontecido em qualquer tribunal na Terra...

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

La Marseillaise (1937), de Jean Renoir


Um dos grandes filmes de Jean Renoir, filho do pintor, e que retrata episódios desde a Queda da Bastilha até a deposição de Luis XVI (1793). A criação do hino é um dos temas centrais do filme. O 14 de Julho, na verdade, aparece apenas no início do filme, quando vemos Luis XVI almoçando e se dizendo cansado de uma caçada. O grande personagem, nas palavras do próprio diretor, é o povo francês. Segundo ele, é quem faltava até então - muitos filmes falavam de Napoleão ou do rei, ou mesmo dos principais revolucionários. Mas aqui, não: é o povo.  

Para Martin Scorsese, um dos melhores filmes históricos jamais feitos. Renoir exalta a ideia de liberdade num momento em que Hitler já projeta sua sombra por toda a Europa. A invasão da França pelos prussianos não poderia ser mais atual – o filme é de 1937.

No final, o rei (interpretado pelo irmão do diretor), fugindo do palácio, observa que as folhas estão caindo mais cedo naquele ano – óbvia a analogia à monarquia.

A última cena mostra os cidadãos a postos a mais um ataque prussiano. E Javel: “20 mil escravos e 5 mil traidores jamais derrotarão 20 milhões de homens livres!”. Emocionante, mas não deixa de ser irônico notar que três anos mais tarde os alemães entrariam com enorme facilidade em Paris...

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O Museu da Inocência, de Ohran Pamuk

ê


Editora: Companhia das Letras,
Tradução: Sergio Flaksman (do inglês)
568 páginas
2011

“Era o momento mais feliz da minha vida, mas eu não sabia. Se soubesse, se tivesse dado o devido valor a essa dádiva, tudo teria acontecido de outra maneira? Sim, se eu tivesse reconhecido aquele momento de felicidade perfeita, teria agarrado com força e nunca deixaria que me escapasse. Levou alguns segundos, talvez, para aquele estado luminoso tomar conta de mim, mergulhando-me na paz mais profunda, mas ele me pareceu ter durado horas, até mesmo anos. Naquele momento, na tarde de segunda-feira, 26 de maio de 1975, em torno de quinze para as três, assim como nos sentíamos além do pecado e da culpa, o mundo todo parecia ter sido liberado da gravidade e do tempo” (p. 15).

A história de Kemal, de família tradicional de Istambul e que aos 30 anos está prestes a se casar com Sibel, e Füsun, uma prima distante e pobre de 18 anos é também a história da Turquia na década de 1970.

A eterna divisão do país entre ocidente e oriente; os costumes cultivados pelas famílias tradicionais – o não casamento com Sibel não seria uma desgraça social se a causa não fosse a prima pobre... A família ocidentalizada não vê maiores problemas em seus encontros com Sibel em um apartamento da família nem o sexo antes do casamento.

Mas quando o noivado se desfaz e vem à tona a sua causa – sua relação com Füsun, a situação torna-se insustentável. Nesse momento, a virgindade se torna algo valioso – afinal, ele acabou de roubar de Sibel o que lhe era mais caro – e, como deixa claro, se ela não dá a mínima por isso, a sociedade turca se importa.

Por causa disso, cai em ostracismo, torna-se uma sombra do que um dia tinha sido. Por outro lado, não pode se casar com Füsun, que sempre quis ser atriz de cinema e em determinado momento se casa com outro. E é essa impossibilidade que o leva a criar um museu.

O Museu é composto por vários objetos colecionados desde essa época por Kemal, tudo para provar e documentar seu amor por Füsun (o que inclui as 4.213 guimbas de cigarros deixadas por ela). Curiosamente, o próprio Pamuk está realmente criando um museu que irá conter vários dos objetos mostrados por Kemal aos leitores da história.

Mas Kemal fala de um tipo de museu;

“Não estou falando do Louvre nem do Beaubourg, nem dos outros museus lotados e importantes da mesma estirpe; estou falando dos muitos museus vazios que encontrei em Paris, coleções que ninguém jamais visita. Havia o Musée Édith Piaf, fundado por um grande admirador, onde com hora marcada pude ver escovas, pentes e ursos de pelúcia; o Musée de la Préfecture de Police, onde passei um dia inteiro; e o Musée Jacquemart-André, onde objetos variados eram expostos junto a quadros de maneira muito original (...)” (p. 523-524).

É interessante que em outro livro de Pamuk, Istambul, o edifício onde sua família morava era um “museu escuro”, segundo suas próprias palavras. 

Por fim, Kemal sobrevive a tudo, inclusive Füsun, e "abre" a narrativa para a conclusão de Orhan Pamuk.