sexta-feira, 29 de julho de 2011

O Sócio, de Slawomir Mrozek

Extraído do blog Nosotros somos quien somos:

Decidí vender mi alma al diablo. El alma es lo más valioso que tiene el hombre, de modo que esperaba hacer um negocio colosal. El diablo que se presentó a la cinta me decepciono. Las pezuñas de plástico, la cola arrancada y atada com uma cuerda, el pellejo descolorido y como roído por las polillas, los cuernos pequeñitos, poco desarrollados. Cuánto podia dar um desgraciado así por mi inapreciable alma?
- Seguro que usted es el diablo? – pregunté.
- Si, por qué lo dudas?
- Me esperaba al Principe de las Tinieblas y usted es, no sé, así como uma chapuza.
- A tal alma, tal diablo – contestó. Vamos al negocio.

(do livro Juego de azar, Barcelona, 2001)

Conto da semana - Slawomir Mrozek e o boneco de neve

Ilustração de Daniel Mroz


Slawomir Mrozek nasceu na Cracóvia, em 1930, e é o autor do conto da semana. Conhecido como dramaturgo, lançou em 1957 uma coleção de contos – O Elefante. São histórias muito curtas e irônicas, lembrando em muito os contos absurdos de Jaroslav Hasek.

Desta coletânea, baixada via Kindle, consta Crianças. Uma situação absurda, mas cada vez mais plausível em nossos tempos politicamente corretos em que todos se ofendem por qualquer coisa.

Umas crianças fazem, numa praça, um inocente boneco de neve com tudo a que tem direito: nariz de cenoura, olhos, boca, chapéu. Diferente de qualquer outro boneco. O pai estava todo orgulhoso, além de satisfeito com a brincadeira ao ar livre.

No entanto, à noite o jornaleiro procura o pai: tinha o nariz vermelho como a cenoura usada pelas crianças, e não gostou nada desta “alusão” – que isso não mais se repita, avisou. O pai, obviamente, ficou preocupado: as crianças não poderiam ridicularizar ninguém. Logicamente, isso jamais passou pela cabeça delas.

Depois, o diretor da cooperativa viu na disposição das bolas de neve uma sugestão que, na cooperativa, “um ladrão se senta sobre outro”. As crianças caíram em prantos diante de tal acusação.

Finalmente, o presidente local do Conselho Nacional: o boneco foi feito em frente à sua janela, o que era, claramente, um ato subversivo. Os botões do boneco eram uma ofensa à autoridade; ridicularizavam o fato de andar com a braguilha aberta o que, claro, era um direito a ele reservado.

Chorando, disseram que apenas fizeram um boneco de neve, sem pensar em ninguém, sem qualquer outra motivação. Mas ficaram sem a ceia e tiveram que se ajoelhar no chão.

Um dia, com a praça interditada, as crianças são vistas num jardim, discutindo como fazer um novo boneco de neve; um que não fosse “comum”, mas que tivesse o nariz vermelho do jornaleiro pinguço, os botões do presidente...

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Vagas Estrelas da Ursa (1965), de Luchino Visconti




Prosseguindo o meu “Festival Visconti”, assisti a Vagas Estrelas da Ursa, título extraído do verso de um poema de Giacomo Leopardi.

Sandra (Claudia Cardinale) e o marido Andrew (Michael Craig) partem para Volterra – essa viagem, de carro, logo no início do filme, é um dos seus pontos altos.  Uma viagem no tempo, passando por monumentos da civilização etrusca. Também é uma viagem ao passado de Sandra. Volterra está sendo destruída pela erosão e o tempo. Visconti tem como tema recorrente a decadência da famílias tradicionais.

Lá, Sandra e seu irmão Gianni (Jean Sorel) passaram a infância. O objetivo é a homenagem a seu pai, judeu morto em Auschwitz. Há a suspeita de que tenha sido delatado pela mulher (Marie Bell), a mãe dos irmãos, com seu então amante e agora marido Antonio Gilardini (Renzo Ricci). Em alguns momentos, a mãe se queixa do sangue judeu da filha...

Andrew irá descobrir uma relação nada cômoda entre os irmãos. A cena do encontro de ambos no jardim é bastante sugestiva.

Como em Senso, este filme também tem como elemento fundamental a música, desta vez, de Cesar Franck. 

Contos no Rádio

A Rádio MEC volta a apresentar, agora com o apoio da sua Sociedade dos Amigos Ouvintes, a série “Contos no Rádio”, aqui. Já tivemos nossa BBC...

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Senso (1954), de Luchino Visconti



Esta semana assisti ao filme Senso, de Visconti (1954). Alida Valli é a condessa Serpieri, que inicia um caso com o tenente austríaco Franz Mahler (Farley Granger), na Veneza de 1866, nos últimos dias do domínio austríaco sobre a região. A unificação da Itália está a caminho, ainda que o episódio abordado na história, a batalha de Custoza, tenha sido um desastre para os nacionalistas. Curiosamente, é dele outro filme passado na cidade, A Morte em Veneza, com música de “outro” Mahler...

A abertura do filme se dá no La Fenice, com a encenação da ópera de Verdi – Il Trovatore; os italianos deliram com a encenação e os austríacos torcem o nariz. O primo da condessa, Roberto Ussoni, é o líder dos nacionalistas italianos; o conde é um situacionista nato – apóia os austríacos mas, lá pelas tantas do filme, já quer se ajeitar no futuro governo italiano que se aproxima.

A cena em que o tenente segue a condessa pela noite em Veneza, ao som da Sétima Sinfonia de Bruckner , é das melhores do filme.



Mahler tem uma fama terrível com as mulheres. Mas ele bem que avisou a condessa para não amá-lo... Pede dinheiro para ela, para comprar uma declaração médica que lhe permitiria abandonar o exército e a guerra. A condessa acaba lhe entregando o valor, que na verdade era dinheiro para a causa nacionalista.

É óbvio que Mahler desaparece e somente vai ser achado, após ter abandonado o exército, na companhia de outra mulher...

A condessa trai o marido (a cena em que ele a segue, já suspeitando da traição, lembra mesmo uma ópera), o primo, a causa e a pátria. O tenente é um aproveitador dos mais baratos. No final, ela denuncia toda a armação de Mahler para seu superior. Afirma que o faz como uma patriota. O velho não entendeu; ainda pergunta com ironia - a condessa é austríaca?


Uma perfeita combinação de cinema, ópera e música clássica como poucas. Pena não ser tão conhecido por aqui como O Leopardo ou mesmo A Morte em Veneza.

A Cabeça de Tiradentes




O conto da semana é de Bernardo Guimarães (1825-1884), e integra as Histórias e Tradições da Província de Minas Gerais.

Ele inicia a história com uma passagem pela vida em Ouro Preto na época de Tiradentes. Minas, bem como o Brasil inteiro, era bem como uma vasta fazenda explorada em proveito da metrópole.

E nessa época de riqueza e opulência, de servilismo e degradação social, no meio da praça principal desta cidade se via uma cabeça humana dessecada, cravada sobre um alto poste.

Este poste e esta cabeça eram noite e dia guardados por uma sentinela.

E à noite uma lanterna se acendia para aluminar o lúgubre espetáculo.

O conto é de 1867. Na verdade, seria na República que Tiradentes se transformaria de um inconfidente em um verdadeiro herói, com sua imagem assemelhada à de Cristo.

Bernardo Guimarães pergunta o motivo da preocupação com o corpo, e compara o poder póstumo de Tiradentes ao de Ziska (nem o Google sabe dizer quem foi): Ou receavam que esse crânio, hasteado na ponta do estandarte da emancipação, fosse o sinal certo da queda dos tiranos e do triunfo da liberdade, como esse célebre tambor que os soldados húngaros fizeram da pele de seu bravo chefe Ziska, morto no campo de batalha, tambor que quando rufava à frente deles era seguro prenúncio da vitória?

Que ninguém sabe o que foi feito do corpo de Tiradentes, não há dúvida. Bernardo Guimarães conta que, na parte ocidental desta cidade, há uma rua chamada rua das Cabeças. E qual a origem desse nome?

Segundo o autor, a origem desse nome sinistro vem de que aí se fincavam na ponta de estacas as cabeças dos míseros enforcados pelas esquinas dos becos.

Mas, continua, lá vivia um velho misterioso e temido pelo povo, que mal falava com os vizinhos, que um dia descobriram o que ele fazia:

Viram-no abrir com ar de religioso respeito a portinhola de um nicho ou de um armário praticado na parede, tirar dele um crânio humano branco e mirrado, depô-lo silenciosamente sobre uma mesa colocada em frente a um oratório, e ajoelhando-se depois com os braços encostados sobre a mesa, assim ficar por longo tempo, em atitude de profunda meditação ou no êxtase de uma oração.

Alguns anos depois de sua morte, descobriu-se que o velho foi quem roubou a cabeça de Tiradentes, e que a caveira era do próprio. Mas, o que é feito porém desse crânio histórico?

É um conto para ser lido em Ouro Preto num domingo à noite, quando a cidade fica praticamente deserta e é fácil imaginar que numa daquelas casas do Largo do Coimbra, entre as casas de Tomás Antonio Gonzaga e Cláudio Manuel há um ancião lustrando uma caveira.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Dois dias em Ouro Preto




Depois de dez anos, voltamos a Ouro Preto, pela primeira vez com as crianças, em pleno festival de inverno e no ano em que se comemora seu 300º aniversário.



A cidade estava movimentada, mas não lotada; surgiram vários novos restaurantes, e hoje há opções de qualidade para além dos pratos típicos (que são ótimos, diga-se).

A Pousada do Mondego, que integra o Roteiro do Charme, fica num casarão do século 18, no Largo do Coimbra e em frente à Igreja de São Francisco de Assis e à casa onde viveu Cláudio Manuel (hoje, um restaurante) e ao lado da de Tomás Antonio Gonzaga. Consegue manter a atmosfera da época e, ao mesmo tempo, é arejado e à prova de alergia...




Nestes dez anos, os museus melhoraram bastante. A Casa dos Contos, antiga sede do Ministério da Fazenda, está toda reformada. A cela em que Claudio Manuel foi encontrado morto, no entanto, virou uma sala de exposições, e perdeu o ar soturno que sempre manteve. Mas o acesso às senzalas está melhor e, nos fundos, foi criado um parque, com trilha que leva até outro lado da cidade.




O Museu da Inconfidência também foi reformado, e a galeria com os túmulos dos inconfidentes permanece com uma atmosfera especial. À noite, é a construção mais bela da cidade.





Num passeio organizado pela Pousada, fomos à entrada de antigas minas, onde foi explicado que os escravos aqui eram baixos e fortes, em contraste com os mais altos da Bahia para a cultura do cacau.

E passamos também por igrejas mais afastadas do centro, como esta, a capela do Padre Faria, muito simples por fora mas sem dúvida a de interior mais suntuoso.


 

 Dois restaurantes merecem destaque – um, bem tradicional e de culinária típica, a Casa do Ouvidor, na rua Direita; o outro, Bené da Flauta, em frente ao hotel, onde jantei uma truta assada como há muito não comia.


 É uma cidade para voltar com frequência, para se perder nas ruazinhas e becos; em alguns deles quase podemos ver, à noite, umas pessoas tramando a independência...

sábado, 16 de julho de 2011

O Nariz de Stendhal


Daniel Guebel é o autor do conto da semana. O argentino está na antologia Os Outros – narrativa argentina contemporânea, organizada por Luis Gusmán e editada pela Iluminuras. O livro vale para conhecermos os autores vizinhos para além de Borges, Casares e Martinez.

Stendhal, designado pelo exército para ajudar o general Michaud, desapareceu a caminho de Roma. Na verdade, foi para Riga, para corrigir o seu nariz, que excedia as proporções convenientes. Procura o famoso cirurgião Vilnius Daugavpils, que uma vez por mês dava uma aula magna no salão do Pavilhão de Ciências Médicas da universidade.

O dito sujeito agia como um deus. As pessoas faziam de tudo para furar a fila interminável e finalmente conseguir ser operadas. Cortar caminhos por subornos. Stendhal preferia aguardar. Mas o tempo passava, e nada...

No 1º de abril de 1800, assiste à aula magna. O mestre afirma que, ao longo dos séculos, a cirurgia plástica foi proibida – por que mudar a imagem de alguém quando o homem é criado à semelhança de Deus? A arte da anatomia – os melhores anatomistas do mundo eram os melhores artistas, como da Vinci. A aula, a propósito, se intitula “Percurso histórico arrazoado da vivisseção – desde os egípcios até os nossos dias”. Todas essas considerações eram proclamadas ao mesmo tempo em que operava sua cobaia, sua colaboradora involuntária Neris Hirumaa, uma mendiga louca e meio morta generosamente cedida pelo hospício municipal.

Ao pegar o escalpelo, protagoniza a cena que muda a vida de Stendhal; além de dissuadi-lo para sempre da necessidade de tornar mais decente seu apêndice nasal, modificou seu primeiro impulso literário, que era o de se tornar o “escritor das cenas de guerra”.

No dia seguinte, com todo o seu nariz, Stendhal abandonou a cidade.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

a máquina de fazer espanhois, de valter hugo mãe

a máquina de fazer espanhois, de valter hugo mãe. Cosac Naify, 2011



passados vinte e três dias, a elisa e o meu genro vieram visitar-me, traziam os meus netos, o miúdo e a miúda, e eusenti que já não poderia adiar mais o encontro. assim que entraram em meu exíguo quarto, as portadas abertas para mostrarem que vivemos em profunda claridade, fizeram fila no correr do roupeiro e permaneceram esticados como para revista de tropas. verifiquei que estavam de gala, todos adomingados para me verem e eu imaginava bem a elisa a dar ordens precisas sobre isso. quero-vos arranjados porque vamos ver o avô. e eu senti-me um idiota por ter julgado algum dia que as visitas iam ser constantes, coisa do cotidiano, para que eu acreditasse ainda na união da família. que idiota fui, de facto, assumindo ali diante deles que se punham embonecados no disparate de acharem que assim devia ser para irem ver quem outrora viam todos os dias. era como transformarem-me num passeio aborrecido, igual a meterem-se no obsoleto jardim zoológico e obedientemente não alimentarem os animais, porque lhes estragariam a dieta e os ajudariam a adoecer. (p. 46).

Neste segundo livro de valter hugo mãe publicado no Brasil, desta vez pela Editora Cosac Naify, com capa e orelha de Lourenço Mutarelli, o barbeiro antonio jorge da silva acaba de ficar viúvo, aos 84 anos. Imediatamente, é posto pela filha no “Lar da Feliz Idade”, nas suas palavras, um matadouro.

Impossível não lembrar dos Lares do Feliz Ocaso, de Saramago, em As Intermitências da Morte: “Os lares para a terceira e quarta idades, essas benfazejas instituições criadas em atenção à tranquilidade das famílias que não têm tempo nem paciência para limpar os ranhos, atender aos esfíncteres fatigados e levantar-se de noite para chegar a arrastadeira”.

A tal máquina de fazer espanhóis vem a ser, ao que parece, esse matadouro. Se no remorso de baltasar serapião o tema central estava na violência doméstica, aqui há uma crítica à forma como tratamos os idosos – que se tornam os estrangeiros em nossa sociedade. Não por outra razão, o “espanhol” da história é um sujeito que pensa ser português – o enrique de badajoz de Portugal. Isso se faz ao mesmo tempo em que critica pesadamente a sociedade portuguesa em vários aspectos – muitas críticas perfeitamente aplicáveis do lado de cá do Atlântico. O sentimento de inferioridade que nós sentimos, eles também sofrem do lado de lá:

“somos um país de cidadãos não praticantes. ainda somos um país de gente que se abstem. como os que dizem que são católicos mas não fazem nada do que um católico tem para fazer, não comungam, não rezam e não param de pecar. ò senhor silva, dizia-me o silva da europa, anda para aí tudo ignorante destas coisas. a ignorância é que nos pacifica. a paz está toda metida na ignorância, pronta para levar as pessoas à felicidade. e isto era a receita do regime. Igualzinho. hoje podemos ver mas não há quem queira ver. temos um povo que compra o jornal para ler as futilidades, e compra mais ainda as revistas de alcoviteirice, e nem sequer entenderia notícias diferentes” (p. 154)

Há ainda uma crítica permanente ao regime de Salazar e à passividade dos portugueses durante o período – uma visita que recebemos em casa de bom grado, que começou por nos ajudar, mas que depois não quis mais ir-se embora e que nos fez sentir visita sua, até que nos tirou da mão. E também uma ironia nos tempos de crise européia – o filho é professor de finanças na Grécia...

O livro foi lançado na Flip no início deste mês. 

sexta-feira, 8 de julho de 2011

A história do filósofo que não tinha tempo para pensar

O conto da semana é O Dente Quebrado, do venezuelano Pedro Emilio Coll (1872-1947), e está no volume 10 da coleção Mar de Histórias. A Bravo! o colocou entre os “100 contos essenciais da literatura universal”.

Veja se você não conhece algum Juan Peña...

Um moleque problemático e valentão, Juan Peña, leva uma pedrada enquanto brincava; quebra o dente e muda radicalmente de comportamento – passa a ser uma criança introspectiva e distante. O tal dente se transforma numa serra e, à falta de aptidão para coisa melhor, Juan passa os dias a roçá-lo com a língua.  Os pais, lógico, ficam desesperados, mas o médico dá um diagnóstico bem interessante:

- Que seu filho está são como um perro. O que é indiscutível – continuou, em voz misteriosa – é que estamos em face de um caso fenomenal: seu filho, minha estimável senhora, sofre daquilo a que hoje chamamos o mal de pensar; numa palavra, seu filho é um filósofo precoce, um gênio, talvez. Inicia-se, assim, a sua “era de ouro”.

E, de repente, na cidade todos passaram a ver no menino um superdotado. Passava os dias diante dos livros, mas que ele não lia, distraído, pela tarefa de sua língua ocupada em tocar a pequena serra do dente quebrado.

À medida que crescia, também crescia sua reputação de sábio. Foi deputado, acadêmico, ministro, e achava-se a pique de ser eleito presidente da República, quando a apoplexia o surpreendeu acariciando com a ponta da língua o seu dente quebrado.

E assim morreu o grande nome da pátria, o grande homem que não tivera tempo de pensar.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

The Greater Journey: Americans in Paris, de David McCullough



Assistindo às últimas reviravoltas do caso DSK e os embates entre um nacionalismo francês ressentido com um puritanismo americano, leio The Greater Journey: Americans in Paris, do historiador americano David McCullough. A dica, na verdade, foi do Sérgio Augusto, no Estadão, ao falar do último filme do Woody Allen.

Not all pioneers went West, escreve McCullough, que faz um mosaico das levas de americanos que, entre 1830 e 1900, deixaram uma terra provinciana e atrasada para conhecer o então centro do mundo civilizado. Intensifica-se uma relação que já existia desde o século anterior – o general Lafayette é um herói para os americanos, pela sua participação na Independência (tudo o que a França pudesse fazer para atrapalhar os ingleses era válido).

Nas artes, na medicina e nas ciências, os americanos tiveram um grande choque, a começar pela arquitetura – não havia nada que pudesse ser comparado às grandes catedrais de Rouen e Notre-Dame que já vinham sendo erguidas antes mesmo de Colombo chegar à América.

Um dos melhores momentos do livro é a descrição das escolas de medicina francesas, então as mais avançadas do continente. Os americanos rapidamente perceberam que ali estava uma oportunidade inédita: nos EUA, os médicos, todos homens, não podiam examinar ou tocar as mulheres, que passivamente morriam sem atendimento. Pois em Paris, nos diversos hospitais, descobriram que não só os médicos tratavam das pacientes sem grandes pudores como tinham um conhecimento específico de sua anatomia. Elizabeth Blackwell, que lá estudou, veio a ser a primeira médica americana. Além dela, outro americano que procurou aproveitar ao máximo esta oportunidade foi Oliver Holmes Sr., o pai do juiz da Suprema Corte.

Samuel Morse, que todos conhecemos pelo telégrafo (a ideia surgiu durante sua temporada francesa), passava dias no Louvre – e executou uma obra-prima, The Gallery of the Louvre: 





De quebra, levou para seu país as primeiras fotografias e o daguerreótipo. James Fenimore Cooper era o outro já ilustre americano – o primeiro escritor dos EUA com renome internacional.

A descrição do ambiente durante a Guerra contra a Prússia (1870) e a Comuna de Paris é outro ponto alto do livro. McCullough foi direto à fonte, e teve acesso aos diários de Elihu Washburne, embaixador americano na época.

E, para completar, John S. Sargent, o pintor americano e seu Madame X, Madame Gautreau (americana casada com um banqueiro) e exibido no Salão de Paris em 1884:



Segundo McCullough, numa exibição em que as pinturas de nus eram lugar-comum, este retrato da dita senhora em vestido de noite foi considerado escandalosamente erótico. A polêmica foi extremamente positiva para a carreira de Sargent. O NYT o chamou de "caricatura". Mas jornais franceses o elevaram à condição de obra-prima.

É curioso ver a ira de Maupassant e Alexandre Dumas contra o "monstro" que hoje chamamos de Torre Eiffel - "nem a nação mercantil da América" gostaria de ter tal estrutura, de acordo com o manifesto que elaboraram. 

David McCullough oferece aos leitores (esperamos sua tradução para cá) um grande painel das primeiras gerações de americanos que fizeram de Paris a sua casa. De certa maneira, prepararam o terreno para a geração de 1920, que Gil tem o privilégio de encontrar toda meia-noite...

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Conto da semana - Ersan Uldes e o tradutor desmascarado

Aleksandar Hemon, autor de Projeto Lázaro (que recomendo) nasceu na Bósnia e se encontrava nos Estados Unidos quando estourou a guerra, nos anos 90. Ficou por lá mesmo, em Chicago, e adotou o inglês como idioma de suas obras (como Conrad e Nabokov).

Nos últimos anos, passou a editar a série Best European Fiction, selecionando um autor de cada país do continente para, em suas palavras, “descobrir os futuros Joyce, Conrad, Mann”. 

Pois na edição de 2011 (adquirida na Amazon, by Kindle), descobri um autor turco - sim, para Hemon a Turquia faz parte da Europa - Ersan Üldes, e o conto da semana, Comportamento Profissional.

Um curioso relato de um ex-tradutor que, percebendo a ignorância de seus editores que mal conheciam os idiomas dos originais adquiridos, passou a alterar os textos, levando ao extremo a batida associação entre tradutor e traidor.

O tradutor então rearrumava os textos originais. Se o autor matava um personagem nos primeiros capítulos, ele poderia prolongar sua existência, assassinando-o no último. Criava personagens, suprimia cenas, mudava finais – torna-se tão autor quanto o próprio traduzido.

E ele era bem sucedido: alguns autores faziam mais sucesso na Turquia do que nos demais países. Suas intervenções eram muito bem sucedidas; o público adorava, sem nunca desconfiar de nada.  Autores eram consagrados pelo que não haviam escrito – e sim pelo que o personagem havia criado em seu lugar.

Evidentemente, com o passar do tempo, fica cada vez mais arrogante e autoconfiante – o que, presumivelmente, será determinante para a sua queda: ao traduzir uma obra de Judith Wohmann ,“que teve papel fundamental na ascensão de tradutor para autor”, diz. 

E foi traduzindo o seu O Número Pi: um romance, “à prova de ‘correções’ ou ‘revisões’”, que ele encontra o seu fim. Uma história dividida em 3 capítulos, com 3 narradores, com 3 diferentes personagens principais, e com 3 finais diferentes, permitindo ao leitor sua própria interpretação. Como alterar o número? Imagine, diz o nosso ex-tradutor, mudá-lo para 13, número do azar, e multiplicar todos esses aspectos por 13...

Impossibilitado de alterar a história, é desmascarado, e a carreira, arruinada. O conto relembra a impossibilidade de uma tradução “isenta” ou “autêntica”; que o tradutor sempre cria algo – o que é notável quando lemos poesia traduzida (lemos, na verdade, outra coisa, que esperamos bem próxima da original...). Como traduzir Guimarães Rosa?

O conto é muito interessante. Ou então os tradutores do texto turco para o inglês (a edição é de Hemon, lembre-se) alteraram seu original, tornando-o interessante...