terça-feira, 28 de junho de 2011

Um Violinista no Telhado


 

No feriado, assistimos com as crianças à mais nova montagem da dupla Charles Möeller e Cláudio Botelho, em cartaz desde maio no Rio: o musical, de Joseph Stein e baseado em contos de Scholem Aleichem (Tevye e suas Filhas). Nos últimos anos, uma série de produções da Broadway passou a ser montadas por aqui, sempre pela dupla, demonstrando não apenas a existência de público como também de atores e demais profissionais de alta qualidade.

Anatevka é um shtetl fictício - os shtetls eram vilarejos predominantemente judeus espalhados pela Europa Oriental, principalmente na Rússia, Bielo-Russia (não consigo escrever Belarus), Polônia e Ucrânia, até o início da Segunda Guerra, quando foram dizimados. Lá vive Tevye, o leiteiro, interpretado por José Mayer, sua família e vizinhos. Tenta desesperadamente manter as tradições judaicas das ameaças cada vez mais próximas do mundo que o cerca. Personagens como a casamenteira, o rabino, o mendigo, o açougueiro, não poderiam estar de fora. 


As três filhas mais velhas de Tevye irão se casar:  Tzeitel, com Motel, o filho do alfaiate (pobre, como a família da noiva); Hodel, com Perchik, comunista, de Kiev e que acabará preso na Sibéria (e a filha abandonará a todos, provavelmente para sempre, para acompanhá-lo) e, por fim, Chava,  com um russo, Fryedka, que lhe empresta livros e não concorda com a política oficial em relação aos judeus. O que não impede que, para Tvye, isso seja o fim do mundo. Tradição...Tradição...



A história se passa em 1905, e a vida judaica está ameaçada pelo crescente caos que se espalha pelos últimos anos da Rússia czarista. Para variar, os judeus são associados a tudo o que não funciona no Império Russo. Isso não impede uma certa simpatia, verdadeira, da parte do oficial do exército que alerta Tevye que uma operação contra o shtetl se aproxima, e que os judeus serão expulsos de lá. Um pogrom, em resumo. O oficial, aliás, se vê entre algo que não chega a ser uma amizade e os deveres que o Estado lhe impõem.

Por fim, o pogrom é executado – ouvimos os barulhos das casas sendo destruídas, sem nenhuma cena explícita. E, mais uma vez avisados pelo oficial russo, abandonam para sempre Anatevka, partindo para os mais variados destinos: Polônia, França, América.

Para completar, o conto de Aleichem sairá traduzido por Jacó Guinsburg, pela editora Perspectiva, com o título Tobias, o Leiteiro. Já está, é claro, na fila...


(O Violinista, de Chagall - 1912-13). Chagall nasceu também em um shtetl, Vitebsky, na Ucrânia

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Ainda Fernando Pessoa - A Tabacaria, por João Villaret



José Paulo Cavalcanti Filho conheceu Pessoa através da voz de Villaret. 

Ei-lo...

Le Horla, de Guy de Maupassant

Guy de Maupassant foi um dos primeiros autores que consegui ler em francês, numa edição da Librio (nos idos dos 10FF...). Um grande contista, presença obrigatória em qualquer antologia da literatura fantástica. Acho que foi o Eurochannel que passou, há algum tempo atrás, a série Chez Maupassant – diversas adaptações dos seus contos.

O conto da semana é dele: Le Horla, que tem uma história curiosa: sua primeira versão, de 1886, apresenta a forma tradicional de narrativa, na terceira pessoa. No ano seguinte, apareceu a segunda versão (a que é hoje lida por todos), já na forma de um diário íntimo, através do qual acompanhamos a progressiva loucura do seu autor, entre maio e setembro.

O que significa “Horla”? Há várias interpretações, de acordo com Daniel Mortier, professor de literatura de Rouen – um anagrama do sobrenome do médico de Maupassant, Lahor; uma deformação da palavra normanda horsain, que significa “estrangeiro”; um anagrama de choléra.

O autor do diário vive só, com seus empregados, numa casa em Rouen quando, subitamente, começa a se sentir mal; crê estar doente, mas ignora a razão de todos esses problemas. Progressivamente, o quadro se agrava. Procura mudar de ares mas, quando retorna, os sintomas reaparecem, e acredita em uma presença invisível.

Duas curiosidades: no 14 de julho, consta do diário: Fêtes de la République. Je me suis promené par les rues. Les pétards et les drapeaux m’amusaient comme un enfant. C’est pourtant fort bête d’être joyeux, à date fixe, par décret du gouvernement…

Em 19 de agosto, lê na Revue du Monde Scientifique a respeito de uma epidemia de loucura em São Paulo, comparável às doenças contagiosas que atingiram a Europa na Idade Média.

Mas o importante é mesmo a presença desta entidade, o Horla. No dia 14 de agosto, já não tem mais dúvidas de estar sendo visitado por algo: Quelqu’un possède mon âme et la gouverne! Quelqu’un ordonne tous mes actes, tous mes mouvements, toutes mes pensées. Cinco dias depois, Il est venu, le… le… comment se nomme-t-il… le… il semble qu’il me crie son nom, et je ne l’entends pas… le… oui… il le crie… J’écoute… Je ne peux pas… répète… le Horla… J’ai entendu… le Horla… c’est lui… le Horla… il est venu…

A leitura do diário nos mostra a progressiva loucura de seu autor, que decide matar a entidade, colocando fogo em sua casa. Por um breve período, pensa ter resolvido seu problema, mas percebe que “ele” ainda está lá: Non... non... sans aucun doute, sans aucun doute... il n’est pas mort... Alors... alors... il va donc falloir que je me tue, moi...

terça-feira, 21 de junho de 2011

Fernando Pessoa, uma quase autobiografia. José Paulo Cavalcanti Filho



Conheci Fernando Pessoa em 1966, pela voz de João Villaret. Foi o começo de uma paixão que até hoje me encanta e oprime. Tenho mesmo a sensação de que gostava dele ainda mais naquele tempo. Talvez porque todo começo de paixão seja assim mesmo...depois arrefece; ou então, como o rio de sua aldeia, ele apenas pertencesse a menos gente. Pouco a pouco, fomos nos aproximando. Leio frases suas, hoje, como se tivesse estado ao seu lado quando as escreveu; e chego a pressentir as reações que teria perante algum fato do quotidiano. Não se deu apenas comigo. Jorge Luis Borges, 50 anos depois de sua morte, pediu: Deixa-me ser teu amigo; e Luiz Ruffato lembra que era outono e azul quando apresentei-me a Fernando Pessoa. No íntimo, é como se continuasse vivo. Penso que será sempre assim em livros como este, que se propõem contar a história de uma vida. Ao passar dos anos, fui compreendendo melhor esse homem inquieto, o corpo frágil, a angústia da alma, a dimensão grandiosa da obra. Em Lisboa, pude conversar com pessoas que o conheceram. Tocar, com os dedos, papéis escritos por ele. Visitar as casas onde morou. Em frente à escrivaninha do seu quarto, imaginar que o via escrever O guardador de rebanhos. No fundo, agora o percebo,queria sentir os limites do seu destino; e, a cada passo dessa viagem ao passado, era como se sua figura fosse ganhando matéria. Como se em cada canto, impressentidamente, começasse a escapar das sombras. Tanto que o vi, no Chiado, próximo à esquina da Livraria Bertrand. Amigos juram que não era ele; mas esses, coitados, nada conhecem de fantasmas”  (p. 17-18)

Muito comemorada e comentada esta obra de José Paulo Cavalcanti Filho, advogado e ex-ministro da Justiça. Nada mais merecido. Preocupado com o grande público brasileiro, escreveu algo raro em nosso país: uma obra com profundidade e abrangência, e ao mesmo tempo de leitura agradável, ao longo de suas mais de 700 páginas.

Torna-se, assim, uma bela introdução ao poeta e sua obra para aqueles que pouco o conhecem, e uma fonte de referências para os mais íntimos.

Ao tratar dos heterônimos, em primeiro lugar procura demonstrar a recorrência em que são encontrados na literatura, não apenas em língua portuguesa como também estrangeira. Ao trata especificamente dos heterônimos de Fernando Pessoa, além de obviamente dedicar várias páginas aos mais importantes e conhecidos, defende que, ao todo, seriam 127 (e cita-os, um a um).

A tese central, no entanto, é a de que toda a obra de Pessoa remete à sua biografia – e, nesse sentido, seria um escritor “sem qualquer imaginação”. E, para isso, desce às minúcias de sua vida; suas casas, seus escritórios, o período na África do Sul, até mesmo os pratos e restaurantes mais freqüentados; sua relação com movimentos místicos; seu relacionamento com Sá-Carneiro, Miguel Torga e Almada Negreiros. Os poemas do autor permeiam todo o livro.

Na última parte, o Ato IV – Em que se conta do desassossego e de seu destino – a decadência física do poeta e sua morte. Os últimos dias são descritos, de 26 a 30 de novembro de 1935. Neste dia 30:

Aos amigos, segundo informam Antônio Quadros e Gaspar Simões, ainda consegue perguntar com voz clara e alta:

Amanhã a estas horas, onde estarei?

Não há memória do que lhe tenham respondido. “Partir! Meu Deus, partir! Tenho medo de partir!...”, escrevera tão antes. Pelas 8h da noite, começa a perder a visão. Em um intervalo de lucidez, e pensando ainda ler o livrinho que tem com ele, murmura suas últimas palavras:

Dai-me os óculos.

Não lhe deram. Não haveria serventia para eles.

Antonio Tabucchi foi mais generoso. Em seu Os três últimos dias de Fernando Pessoa – um delírio (Editora Rocco, 1996), “Pessoa suspirou. Antonio Mora pegou os óculos do criado-mudo e ajeitou-os em seu rosto. Pessoa arregalou os olhos e as suas mãos pararam sobre o lençol. Eram exatamente oito e meia da noite”.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Meia Noite em Paris, de Woody Allen


Em Paris, à meia-noite, Gil é convidado para grandes encontros com os Fitzgerald, Picasso, Gerturde Stein, Hemingway. Tudo bem, se Gil não vivesse no século 21...

No novo filme de Woody Allen, que encontrou em Owen Wilson um ator capaz de falar como ele próprio, Gil é um roteirista de sucesso em Hollywood que, na realidade, gostaria de ser um escritor consagrado. Sua noiva Inez, com os seus pais, forma um grupo de americanos “republicanos” (sempre tem alguém assim nos filmes de Woody Allen).



Gil e Inez encontram outro casal, Paul e Carol – Michael Sheen, ótimo como Paul, um esnobe que se acha intelectual e superior a todos os outros (quem não conhece um mala como ele, que “entende” de tudo, de vinhos, arte, literatura, história, mesmo falando besteiras monumentais?).  Paul despreza, inclusive, a guia do museu Rodin (Carla Bruni).

Outro que merece destaque é Adrien Brody (talvez o melhor, além de Wilson), como Dalí – que vê rinocerontes em todo lugar.

Durante a estada em Paris, ele procura tolerar os dias com a noiva fútil e o casal “mala” para, à noite, conversar com quem realmente gostaria. E, nesses encontros, conhece Adriana.

Isaac Asimov dizia que sempre perguntava aos jovens se eles gostariam de viver na Grécia Antiga – e eles sempre diziam que sim – ao que contra-atacava: como escravo? Asimov falava que temos uma versão por demais romantizada dos tempos passados – como se na Grécia passeássemos pelas ruas e tomássemos um café com Platão...

É esta a ideia do filme – Gil, que sonha com a Paris de 1920 se envolve com Adriana que, justamente por viver nos anos 20, tem o seu interesse voltado para o que entende ser o verdadeiro grande momento na Paris de 1890.

Falando nisso, e inspirado no filme, iniciei a leitura do recém lançado The Greater Journey: Americans in Paris, de David McCullough (via Kindle). O livro trata de outro período - de 1820 ao início do século 20, bem mais ao gosto de Adriana. O Sérgio Augusto, no Sabático (Estado de S. Paulo) também fala deste livro. 

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Conto da semana - Antonio Tabucchi

Antonio Tabucchi é autor do romance Afirma Pereira (Rocco, 1995, traduzido por Roberta Barni) e transformado em filme de Roberto Faenza, com Marcello Mastroiani, Joaquim de Almeida e Daniel Auteuil.

O italiano é um dos maiores especialistas em Fernando Pessoa – Tabucchi é, inclusive, muito parecido, fisicamente, com Pessoa. Afirma Pereira se passa em Lisboa, sob a ditadura de Salazar, em 1938.

O conto da semana é uma homenagem de Tabucchi a Pessoa – está no livro Sonhos de Sonhos (Rocco, 1996, traduzido por Rachel Gutierrez): Sonho de Fernando Pessoa: poeta e fingidor.

Em 7 de março de 1914, o poeta sonhou que estava acordado. Estava se dirigindo à estação de trem de Lisboa para ir a Santarém. Chegando a essa cidade, pegou um coche. Pergunta ao cocheiro se ele sabia de uma casa isolada caiada de branco, ao que o condutor respondeu que sim, que é a casa do Sr. Caeiro.

Onde estavam? Estamos na África do Sul, respondeu o cocheiro, e o estou levando à casa do Sr. Caeiro.

(...) Ah! então estava na África do Sul, era exatamente o que queria. Cruzou os tornozelos nus, saindo das calças à marinheiro. Compreendeu que era um menino, e isso muito o alegrou. Era ótimo ser um menino que viajava pela África do Sul. Retirou do bolso uma carteira de cigarros e acendeu um com prazer.

Chegando à tal casa branca, viu Caeiro, que estava sentado em uma das poltronas e tinha a cabeça inclinada para trás. Era o diretor Nicholas, seu professor da High School.

Não sabia que Caeiro fosse o senhor, disse Fernando Pessoa, e inclinou-se ligeiramente (...) O senhor é o meu mestre, disse.

Caeiro suspirou e depois sorriu. É uma longa história, disse, mas é inútil que eu a explique a você tintim por tintim, você é inteligente e vai compreender, mesmo que eu salte algumas passagens. Saiba apenas isto: eu sou você.

Explique-se melhor, disse Pessoa.

Sou a parte mais profunda de você, disse Caeiro, sua parte obscura. Por isso sou seu mestre. (...) Você deve seguir a minha voz, disse Caeiro, vai me ouvir na vigília e no sono, vou perturbá-lo às vezes, em outras nem quererá me ouvir. Mas terá de me escutar. Deverá ter a coragem de escutar esta voz, se quer ser um grande poeta.

Ao que Fernando Pessoa responde prontamente estar de acordo. Parte da casa branca, retorna ao coche, que o esperava todo esse tempo. Agora, já é adulto.

Onde devo levá-lo? perguntou o cocheiro. Leve-me ao fim do sonho, disse Pessoa, hoje é o dia triunfal da minha vida.

E acorda no dia 8 de março. Como diz Tabucchi: O “dia triunfal” de sua existência foi 8 de março de 1914, quando os poetas que o habitavam começaram a escrever por sua mão.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Lope, de Andrucha Waddington

Lope, de Andrucha Waddington. Brasil/Espanha, 2010

Apesar de ter sido lançado há algum tempo, consegui ver em um cinema - de shopping! - nesta terça. Um belo filme, cuidadosamente elaborado e com fotografia que merece uma tela grande. 

O longa mostra o início da carreira artística de Felix Lope de Vega (1562-1635), interpretado pelo argentino Alberto Ammann. Lope, depois de servir à Armada Espanhola (na verdade, trata-se da grande derrota que a então "Armada Invencível" sofreu para a Inglaterra em 1588), retorna a Madri. Reencontra a mãe (Sonia Braga) e procura ganhar a vida com suas peças. Tem interesse em Isabel (Leonor Watling) mas acaba se envolvendo com a filha do "produtor" de peças a quem passa a trabalhar, Jeronimo Velasquez.

Para os brasileiros, além do diretor e de Sonia Braga, destaque para Selton Mello, no papel do Marquês de Navas, interessado em Isabel mas absolutamente desprovido de talento poético e que, por isso, contrata Lope para lhe criar poemas (um leve traço de Cyrano de Bergerac...) e, assim, tentar conquistá-la.

Um belo filme, com belas paisagens, ganhou dois Goyas em 2011, pelo melhor figurino e melhor canção original ("Que el soneto nos tome por sorpresa", de Jorge Drexler):



Apesar de o filme terminar com Lope e Isabel juntos (após o julgamento e absolvição do poeta), dando uma impressão de "final feliz", Lope casou-se inúmeras vezes, e foi para outra mulher, Marta de Navares, que fez sua obra mais famosa - Amarilis.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fernando Pessoa - 13 de junho



Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus

Poemas inconjuntos, Alberto Caeiro

Fernando Pessoa nasceu em 13 de junho de 1888.

E é de hoje, 13 de junho de 2011, a data do prefácio, escrito pelo próprio José Paulo Cavalcanti Filho, do seu livro Fernando Pessoa: uma quase autobiografia.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Conto da semana - Mia Couto

O conto da semana é do escritor moçambicano Mia Couto, de quem ainda não li nenhum romance. Não por falta de opção no mercado brasileiro. Aqui, um curtíssimo conto – O Assalto - que dá o título ao livro da editora portuguesa Padrões Culturais, de 2009.  A Chris recebeu o texto de uma colega. São as vantagens da Internet. Aqui, temos um assalto diferente.

Uns desses dias fui assaltado. Foi num virar de esquina, num desses becos onde o escuro se aferrolha com chave preta. Nem decifrei o vulto: só vi, em rebrilho fugaz, a arma em sua mão. Já eu pensava fora do pensamento: eis-me! A pistola foi-me justaposta no peito, a mostrar-me que a morte é um cão que obedece antes mesmo de se lhe ter assobiado. 

Tudo se embrulhava em apuros e eu fazia contas à vida. O medo é uma faca que corta com o cabo e não com a lâmina. A gente empunha a faca e, quanto maior a força de pulso, mais nos cortamos. 

— Para trás!

Obedeci à ordem, tropeçando até me estancar de encontro à parede. O gelo endovenoso, o coração em cristal: eu estava na ante-câmara, à espera de um simples estalido. Cumpria os mandamentos do assaltante, tudo mecanicamente. E mais parvalhado que o cuco do relógio. O que fazer? Contra-atacar? Arriscar tudo e, assim sem mais nem nada, atirar a vida para trás das costas?

(...)


Mas este curioso assaltante não lhe pediu dinheiro, relógio ou o carro:


(...)
— O que quer de mim?

— Eu quero conversar.

— Conversar?

— Sim, apenas isso, conversar. É que, agora, com esta minha idade, já ninguém me conversa.

Então, isso? Simplesmente, um palavreado? Sim, era só esse o móbil do crime. O homem recorria ao assalto de arma de fogo para roubar instantes, uma frestinha de atenção. Se ninguém lhe dava a cortesia de um reparo ele obteria esse direito nem que fosse a tiro de pistola. Não podia era perder sua última humanidade — o direito de encontrar os outros, olhos em olhos, alma revelando-se em outro rosto. 

E me sentei, sem hora nem gasto. Ali no beco escuro lhe contei vida, em cores e mentiras. No fim, já quase ele adormecera em minhas histórias eu me despedi em requerimento: que, em próximo encontro, se dispensaria a pistola. De bom agrado, nos sentaríamos ambos num bom banco de jardim. Ao que o velho, pronto, ripostou:

— Não faça isso. Me deixe assaltar o senhor. Assim, me dá mais gosto.

(...)

Um assaltante especializado em roubar atenção.  Os que tive o desprazer de conhecer apenas se interessavam pelas minhas carteiras (um ficou tão irritado com o moedeiro vazio que ainda se deu ao trabalho de voltar e devolvê-lo, jogando-o na minha cara) e, vez por outra, meus relógios.  E, até hoje, com sobressaltos.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Dublinesca, de Enrique Vila-Matas


Dublinesca. Enrique Vila-Matas. Cosac Naify, 2011. 320 p.

Pertence à estirpe cada vez mais rara dos editores cultos, literários. E, comovido, assiste todos os dias ao espetáculo de como o ramo nobre de seu ofício – os editores que ainda leem e que sempre foram atraídos pela literatura – vai se extinguindo sigilosamente, no começo deste século. Teve problemas há dois anos, mas soube fechar a tempo a editora que, no fim das contas, mesmo tendo obtido um notável prestígio, caminhava com assombrosa obstinação para a falência. Em mais de trinta anos de trajetória independente, aconteceu de tudo, sucesso, mas também grandes fracassos. A falta de rumo da etapa final ele atribui a sua resistência a publicar livros com as histórias góticas da moda e outras bobagens, e dessa forma esquecer parte da verdade: que nunca se distinguiu por sua boa gestão econômica e que, além disso, talvez pudesse ter sido prejudicado por seu fanatismo desmesurado pela literatura”.

Assim começa Dublinesca (Cosac Naify, 2011, traduzido por José Rubens Siqueira).  Temos a história do editor Samuel Riba, que depois de ter alcançado algum sucesso, conclui que o mundo dos livros é coisa do passado, é uma era que está prestes a terminar.  É a Era de Gutenberg, que dá lugar à Era do Google.  

Os romances de Vila-Matas são um misto de ficção e ensaio – em alguns momentos, quase nos esquecemos que estamos lendo ficção (ainda que isso não ocorra neste Dublinesca como em obras anteriores). O próprio autor admite ser considerado “o mais argentino dos escritores espanhóis”, em referência à conhecida predileção dos nossos vizinhos pelo ensaio...

O mote, aqui, é a interminável discussão a respeito do hipotético fim do livro e da literatura. Vila-Matas cria um personagem que procura aproveitar o Bloomsday  (16 de junho) para realizar o funeral desta era de Gutenberg.

Ribas está em crise. Não se entende com sua mulher, Celia, que ultimamente se interessa muito mais pelo budismo que pelas suas manias. E está cada vez mais solitário: recorre cada vez mais à Internet e ao Google.

Algumas reflexões de Samuel Ribas, o editor:

“Considera-se tão leitor como editor. A edição lhe roubou basicamente a saúde, mas parece que em parte lhe roubou também o bezerro de ouro do romance gótico, que forjou a lenda idiota do leitor passivo. Sonha com o dia em que o fim do feitiço do best-seller dê lugar à reaparição do leitor com talento e se recoloquem os termos do contrato moral entre autor e público. Sonha com o dia em que os editores literários possam respirar de novo, aqueles editores que se desdobram por um leitor ativo, por um leitor suficientemente aberto a ponto de comprar um livro e permitir em sua mente o desenho de uma consciência radicalmente diferente da sua própria (...)Os escritores decepcionam os leitores, mas também acontece o contrário e os leitores decepcionam os escritores quando só buscam nestes a confirmação de que o mundo é como eles o veem” (p. 69).

O leitor de best-seller, já uma aberração para Ribas (que o vê como a causa de seu fim), encontra algo ainda pior – o leitor da tela do computador, que devora um oceano de informações com um dedo de profundidade.

Para Ribas, Ulysses, de Joyce, é o último grande momento da era literária; o ápice, após o qual sobreveio a inevitável decadência. Não descobriu, em 30 anos de trabalho como editor, nenhum grande autor como Joyce ou Beckett (o outro grande homenageado).

Não li Ulysses. Pretendo lê-lo, um dia. Mas isso não impede que se aprecie o livro de Vila-Matas. O centro da trama está no sexto capítulo do livro de Joyce, quando ocorre o enterro de Paddy Dignam. Ribas está lá, com seus amigos escritores – Javier, Ricardo e Nietzky. E, como ocorre em todos os livros do autor, dezenas de referências a autores como Claudio Magris, Paul Auster, Philip Larkin (é dele o poema que dá o nome ao livro).

Ao fim, fica a impressão – e alívio – de que Vila-Matas prova, com este livro, que Ribas está errado; que ainda há grandes autores a serem descobertos, publicados e lidos. 

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Caderno de Economia - com Italo Calvino

O conto da semana é de Italo Calvino, de quem já li O Visconde Partido ao Meio e O Cavaleiro Inexistente. Este A Ovelha Negra integra o livro Um General na Biblioteca (Companhia das Letras, 2001, tradução de Rosa Freire d’Aguiar). Uma teoria sobre distribuição de renda...

Uma curtíssima e curiosa história de um país em que todos eram ladrões – À noite, cada habitante saía, com a gazua e a lanterna, e ia arrombar a casa do vizinho. Voltava de madrugada, carregado, e encontrava a sua casa roubada. E assim todos viviam em paz e sem prejuízo, pois um roubava do outro, e este, um terceiro, e assim por diante, até que se chegava ao último, que roubava o primeiro.

E assim o país prosperava, e tudo seguia normalmente até que apareceu um sujeito honesto, e a crise se instaurou: foi preciso fazê-lo compreender que, se quisesse viver sem fazer nada, não era essa uma boa razão para não deixar os outros fazerem. Cada noite que ele passava em casa era uma família que não comia no dia seguinte.

Convencido, passou a sair de sua casa (deixando-se roubar), mas nem por isso passou a agir. E causou, então, um grave desequilíbrio na renda nacional, uma vez que os que não eram roubados acabaram ficando mais ricos que os outros, e passaram a não querer mais roubar. E além disso, os que vinham roubar a casa do homem honesto sempre a encontravam vazia; assim iam ficando mais pobres.

Os mais ricos passaram a pagar aos mais pobres para roubarem em seu lugar, e pegaram os ainda mais pobres que os pobres ainda para defender seu patrimônio contra os menos pobres. E assim criaram o salário, a polícia e as prisões.

Ao final, já não se falava mais em roubar ou não roubar, mas em ricos e pobres. O honesto, coitado, já tinha morrido de fome há muito tempo...

O Concerto, de Radu Mihaileanu



Aproveitando as férias, consegui assistir à única sessão diária (14:30h) do filme O Concerto, de Radu Mihaileanu (Trem da Vida, que já comentei aqui).  Novamente, um grande filme.

Andrei Filipov (Aleksey Guskov) foi maestro da orquestra do Bolshoi, mas há 30 anos fora demitido, em pleno concerto, por haver contratado músicos judeus. Agora, já na Rússia capitalista, é faxineiro do mesmo teatro quando, acidentalmente, descobre um fax, através do qual o Teatro Chatelet, em Paris, convida o Bolshoi para uma apresentação.



Resolve, então, “se apropriar” do convite, e monta uma orquestra com os músicos judeus (e ciganos – essa combinação já estava presente em Trem da Vida) e vai a Paris, para o espetáculo. Mas qual seria a razão deste empenho todo? Sabemos que insiste na presença da virtuose francesa do violino, Anne-Marie Jacquet (Mélanie Laurent, a Shosana de Bastardos Inglórios).


Como no primeiro filme, aqui temos um humor fino e ao mesmo tempo melancólico. Os novos-ricos mafiosos russos são bastante ridicularizados; os antigos comunistas vivem pagando figurantes para a montagem de manifestações saudosistas de uma era definitivamente enterrada; o músico que demitira Filipov é hoje um comunista órfão sem qualquer perspectiva.

Lá pelo meio do filme, descobre-se uma intensa relação entre o maestro e Anne-Marie (um segredo somente conhecido por Filipov). Esta é a verdadeira motivação não apenas do concerto, como também da exigência da solista e o programa – Tchaikovsky). O cinema todo espera descobrir que eles são pai e filha mas, novamente, esse seria um destino muito previsível para Mihaileanu.