sábado, 30 de abril de 2011

Subindo Babel


A Torre de Babel. Pieter Brueghel, o Velho, c. 1563 -
Museu Kunsthistorisches, Viena

Para mim, o maior prazer em aprender um idioma é poder descobrir novos autores e lê-los no original. Também ganhar mais acesso às televisões estrangeiras é um grande barato. E, claro, viajar. Por isso, confesso uma certa inveja de pessoas e personagens poliglotas.

Marco Lucchesi, o mais novo membro da ABL, pode se dar ao luxo de ler não só em línguas "conhecidas" como francês, italiano e inglês, como também em servo-croata, persa, romeno, russo e mais uma dezena.

Em A Língua Absolvida (Companhia das Letras, 1996), Elias Canetti fala de seu avô, Elias Abraham Canetti, comerciante que se gabava de dominar 17 idiomas.

Impossível disfarçar a inveja...

Caderno de Economia - com Machado de Assis

Eu, acionista do Banco
Do Brasil, que nunca saio,
Que nunca daqui me arranco,
Inda que me caia um raio,

Para saber como passa
O Banco em sua saúde,
Se alguma coisa o ameaça,
e ganha ou perde em virtude,

Li (confesso) alegremente,
Li com estas minhas vistas,
O anúncio do presidente
Convocando os acionistas.

Para quê? Para o debate
Do reformado estatuto,
Obra em que há de haver combate,
Que traz gozo, que traz luto.

Pois nesse anúncio, à maneira
De censura, escreve o homem
Que é já esta a vez terceira
Que chama e que eles se somem.

Minto: sumiram-se duas.
Não tem culpa o anunciante,
Se há necessidades cruas
Do metro e de consoante.

Pela vez terceira os chama,
E agora é definitivo,
Muitos que fiquem na cama,
Um só punhado é preciso.

Mas eu pergunto, e comigo
Perguntam muitos colegas,
Que, indo pelo vezo antigo,
Não vão certamente às cegas:

- O acionista de um banco,
Só por ser triste acionista,
É algum escravo branco?
Não tem foro que lhe assista?

Não pode comer quieto
O seu costumado almoço,
Debaixo do próprio teto,
Velho já, maduro ou moço?

Barriga cheia, não pode
Dormitar o seu bocado,
Para que o não incomode
O que tiver almoçado?

Pois então a liberdade
Que tem toda a outra gente
Cidadão, meu Deus, não há de
Tê-la esta pobre inocente?

É certo que os diretores
Do Banco são reduzidos
A quatro, e que outros senhores
Vão a menos: suprimidos.

Em tal caso; é razão boa
Para que, firmes, valentes,
Compareçam em pessoa
Diretores e gerentes.

Res vestra agitur. Justo.
Mas que temos nós com isto?
Para que me metam susto
Só outra coisa, está visto.

Sim, o que algum susto mete,
Transtorna, escurece, arrasa,
Não é que eles sejam sete
Ou quatro os chefes da casa:

Sejam sete ou quatro, ou nove,
Disponham disto ou daquilo,
É coisa que me não move,
Posso digerir tranquilo.

Porquanto, digo, em havendo
Nas unhas dos pagadores
Um bonito dividendo,
Que nos importam divisores?

Tenham estes cara longa,
Cabelo amarelo ou preto,
Nasceram em Covadonga,
Em Tânger, em Orvieto;

Usem de barbas postiças,
Ou naturais, ou nenhumas;
Creiam em sermões, em missas,
Ou na sibila de Cumas;

Para mim tudo é mestre,
Contanto que haja, certinho,
No fim de cada semestre
O meu dividendozinho.

Machado de Assis. Gazeta de Holanda. 10 de fevereiro de 1888.

Nesta crônica em verso, uma verdadeira aula de economia e de direito empresarial.

terça-feira, 26 de abril de 2011

A dama do cachorrinho


O vídeo é do filme "A Dama do cachorrinho", de 1960; produção russa (soviética) que comemorou o centenário de nascimento de Anton Tchekov (1860-1904). Esta é a primeira das nove partes. Dirigido por Iosif Kheifits, com Aleksey Batalov (Gurov) e Iya Sawina (Anna Sergueyovna).

Tenho especial carinho pelo gênero conto. E, falando em contos, Tchekov é presença obrigatória. Seus contos são sempre breves; Tchekov cria atmosferas com poucas palavras. Neste sentido, é bem diferente de Tolstoi (que também será presença constante neste blog...). No Brasil, suas peças são encenadas com frequência (Tio Ványa, O Jardim das Cerejeiras, Três Irmãs).

Dmitri Dmitrich Gurov descansa em Yalta. Casado e com filhos, passa a trair a esposa e, após tantos casos sem importância, passa a encarar as mulheres com cinismo. Situação que, claro, irá mudar com a chegada à cidade de uma mulher que passeia com seu cachorrinho - Anna Segueyovna. Após iniciado o affair, ela retorna a S. e ele, a Moscou, e a história parece ter se encerrado. No entanto ...

sábado, 23 de abril de 2011

Dia 23 de abril

Desde 1995, de acordo com a UNESCO, dia do livro, que coincide com o fatídico dia de 1616 em que morreram Shakespeare e Cervantes. Parabéns a todos.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Livrarias Inesquecíveis


Desde 1952, a Livraria Leonardo da Vinci é uma referência no Rio. Em tempos pré-Amazon e pré-Internet, era a grande janela que nos ligava às editoras americanas e europeias. Tínhamos acesso aos catálogos das editoras e a uma infinidade de exemplares estrangeiros (até em russo). E, se por alguma razão, não encontrávamos o que queríamos, era só pedir e aguardar (hoje inimagináveis) semanas...

Meus primeiros livros ingleses e franceses vieram de lá. Coleções que existem até hoje, como a Librio, de 2 euros (na pré-história, 10 francos) e da Dover Thrift Editions (a inacreditáveis US$1,50). Edições completas, bem cuidadas e baratas, mesmo com o famigerado "dólar-livro".

Já o taxímetro das nossas edições mais baratas em geral parte dos R$20,00...

Mar de Histórias



Mar de Histórias. Antologia do Conto Mundial. Coleção em 10 volumes. Nova Fronteira


Aurélio Buarque de Holanda e Paulo Rónai reuniram em dez volumes nada menos que 242 contos, escolhidos entre 195 autores de mais de 40 países, e foram responsáveis pela apresentação de vários deles ao leitor brasileiro. A 1ª edição do 1º volume é de 1945. Ao que me consta, desde 1998 encontra-se esgotada.

Em todos os contos, há um pequeno prefácio que não apenas apresenta o autor, como também indica o texto utilizado para a tradução. A partir daí, descobri autores como Saki, Akutagawa e L'Isle Adam, para citar alguns mais esquecidos.

Evidentemente, diante de uma coletânea deste porte, não se deve esperar grande regularidade; como toda antologia, pode ser avaliada tanto pelo que apresenta como pelo que exclui... mas o saldo é amplamente positivo.

 

De Saki, por exemplo, há dois contos no nono volume: A Porta Aberta, que em 1989 virou curta nacional (da época do Sarney - quem, com mais de 35 anos, não se lembra daqueles curtas que obrigatoriamente assistíamos antes dos longas? -  e, por incrível que pareça, vale a pena ser visto, dirigido por Aluísio Abranches e com Marieta Severo e José Wilker), e O Contador de Histórias, que hoje pode ser lida como uma crítica bem humorada ao politicamente correto. Aqui, duas crianças perdem a paciência com uma história, contada pela tia durante uma viagem de trem. Um passageiro, que dividia a cabine com as três e bastante aborrecido não apenas com a história da tia mas também com a algazarra das crianças, aposta com a mulher que conseguirá entretê-las por alguns minutos - e o faz, contando uma história nada edificante...



En Français

Uma dica para quem lê ou está estudando Francês pode ser vista aqui. São milhares de livros que podem ser lidos e, simultaneamente, ouvidos.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Outra Visão - Machado de Assis e o Encilhamento

Já Machado de Assis (Esaú e Jacó) resume o Encilhamento (que, no romance, tanto enriqueceu Nóbrega) em um único parágrafo – de forma impecável:

Cascatas de idéias, de invenções, de concessões rolavam todos os dias, sonoras e vistosas para se fazerem contos de réis, centenas de contos, milhares, milhares de milhares, milhares de milhares de milhares de contos de réis. Todos os papéis, aliás ações, saíam frescos e eternos do prelo. Eram estradas de ferro, bancos, fábricas, minas, estaleiros, navegação, edificação, exportação, importação, ensaques, empréstimos, todas as uniões, todas as regiões (...).  Tudo andava nas ruas e praças, com estatutos, organizadores e listas (...). Nasciam as ações a preço alto, mais numerosas que as antigas crias da escravidão, e com dividendos infinitos.

Advogados nada ilustres - Ferreira Sodré

Famílias compravam papéis de empresas recém criadas, muitas delas fantasmas e que jamais foram de fato constituídas (mas nem todas; a Companhia de Construções Civis foi responsável pela urbanização de Copacabana), dando como pagamento fazendas e títulos da dívida pública. Esta foi, inclusive, a grande participação de Ferreira Sodré, advogado criado pelo Visconde, e que:

Não carregava, porém, nome lá muito puro. Pródigo e, solteiro embora, precisando sempre de dinheiro, que espalhava a rodo pelo corrido de parasitas e admiradores de que vivia cercado, exercia a advocacia administrativa com todo o desfaçamento e tanto mais proveito, quanto os ministros conheciam o seu inestimável valor e préstimo nos dias de apuros, interpelações e crises.

Não à toa, Ferreira Sodré tinha seu lema: “não procurem fazer os outros melhores do que são – Deus os criou assim, a culpa é Dele”. Assim, não devemos nos surpreender quando Costa Bretas o procura em seu escritório, no Rio, para a montagem de um estabelecimento modelo de velas de todos os tipos,

 Tudo, porém, com muitos, mas muitos auxílios do Estado, isenções completas dos direitos nas alfândegas a dar com o pau, dos pagamentos e do resto (...)

Para, em seguida, responder à oferta do advogado, que se comprometeu a auxiliá-lo no lançamento da “companhia”:

Qual companhia!... Isto está ficando corriqueiro demais... O meu plano é outro, muito mais rápido, expedito, sem barulho, nem zabumgagens... Digo meu, mas de fato não é meu... Cartas na mesa... Sou um simples testa de ferro... A roça já está feita, é só colher o milho.

Costa Bretas informa que pretende recorrer à Companhia Nacional de Iluminação, para obrigá-la a comprar-lhe suas debêntures. Ao saber que Ferreira Sodré é acionista da futura vítima, pede-lhe desculpas, mas também lealdade. Mas o advogado minimiza o fato:

Ora, replicou o doutor, 50 ações, uma ninharia... Até convém isto aos seus interesses... Tem aliado seguro dentro da praça que vai ser cercada... Farei ver quanto importa à Nacional comprar sem hesitação o privilégio... O Senhor é um felizardo, não há dúvida... Veio logo bater à melhor porta...

As medidas adotadas o foram com atraso. Os bancos emissores foram fundidos. E Taunay, sobre o destino destes e de outras instituições:

            - Em que darão todas essas empresas? perguntara um dos ingênuos da praça.
            - Fundir-se-ão num só banco, respondera ele convicto.
            - Deveras, qual deles?
            - O banco dos réus.
           

A Bolha do Visconde

Em um livro considerado menor pela crítica - quando não totalmente esquecido - o Visconde de Taunay apresenta um retrato da vida carioca nos idos de 1893 e da quebra da Bolsa do Rio: O Encilhamento. Uma reedição não cairia mal. Curiosamente, meu exemplar, garimpado na Livraria Cultura, é de 1971, quando a Bolsa de Valores do Rio sofreu uma nova grande queda, pulverizando para sempre a riqueza de muitos...

O governo criou bancos de emissão de moeda, não mais lastreada no ouro, mas em títulos da dívida pública. O país, que atravessava crise de falta de liquidez, passou a outro extremo, o do excesso de crédito, que foi canalizado pela Bolsa: empresas eram constituídas da noite para o dia, emitiam debêntures e com isso captavam boa parte da poupança popular. Os poucos endinheirados da época vendiam fazendas para comprar estes papéis, muitos de companhias inidôneas, o que gerou uma bolha, que finalmente “estourou” em 1893.

Nem todas as empresas eram de fachada. Algumas prosperaram, como a Companhia de Construções Civis, responsável pela urbanização de uma área da cidade – e, assim, criou o bairro de Copacabana. Muitos acusam o Visconde de ter escrito um panfleto contra a República, com bastante má vontade e nenhum humor.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Finkler

Finkler faz parte da organização ASHamed Jews (algo como Judeus Envergonhados mas, como "ash" significa cinzas, confesso estar curioso para ver como será a tradução). Um grupo de judeus críticos das políticas israelenses e que, por essa razão, são tidos como antissionistas e antissemitas. Escreveu o sucesso "Existencialism in the Kitchen"...

Treslove, por sua vez, quer a todo custo "virar" judeu, e me lembra, nesse aspecto,Coleman Silk, professor de letras clássicas da Faculdade Athena. O personagem de "A Marca Humana", de Philip Roth, esconde sua verdadeira origem racial e "adota" a identidade judaica. Mas ver Anthony Hopkins neste papel no cinema - Revelações, de Robert Benton, fácil de achar na locadora - torna a história não muito verossímil...

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Estou lendo: The Finkler Question


O inglês Howard Jacobson ganhou o Booker Prize de 2010. Ainda não saiu por aqui, mas parece que seus direitos foram adquiridos pela Bertrand Brasil. Estou lendo pelo Kindle.

Jacobson é, para muitos, o Philip Roth inglês. Aqui, conta a história de Julian Treslove, ex-produtor de rádio da BBC, um "não judeu" que, de tanto invejar o seu amigo, Sam Finkler, filósofo bastante popular, procura se "tornar" um judeu de verdade... Aos dois, soma-se o ex-professor, Libor Sevick, de 90 anos, também judeu, que já saiu com Marlene Dietrich e Marilyn Monroe, mas que sente mesmo falta de sua mulher, Malkie, que acabou de morrer.

Treslove é atacado por uma mulher: "You, Ju...!" - grita ela. O que ela teria dito? "You, Julian" ou "You, Jew"? O fato é que Treslove passa a se considerar vítima de um ataque antissemita...

O livro é bastante divertido - o que surpreendeu a muitos pelo fato de o Booker Prize privilegiar obras consideradas "sérias". Ainda estou lendo mas acredito que, mais cedo ou mais tarde, vira filme...


sexta-feira, 8 de abril de 2011

Eu e o Kindle

Alberto Manguel já escreveu um livro sobre as bibliotecas (incluindo a sua) e outro sobre os livros que lia à medida em que arrumava a sua (levou um ano para isso!), em Poitiers, numa construção medieval. Tendo que me contentar com a realidade de apartamento e filhos, o Kindle já representa uma revolução. Desde novembro passado, me sinto absolutamente à vontade para comprar e ler aquilo que muitas vezes encontramos na livraria, mas pensamos: "Vale a pena ocupar espaço lá em casa com essas oitocentas páginas?"

No final do ano passado, a uma semana da divulgação do Booker Prize, os finalistas já estavam todos disponíveis pela Amazon. Para quem gosta de literatura em língua inglesa contemporânea, é perfeito. Há clássicos que ainda (que eu saiba) não foram editados no Brasil (ou já se esgotaram), como a Marcha Radetzky, de Joseph Roth (austríaco que não tem qualquer relação com o Philip Roth).

Há um fato curioso: somos leitores "Latin America&Caribe". Os livros estão disponíveis para regiões específicas. E, ironia do destino, o livro do americano Benjamin Moser, sobre a Clarice Lispector, não está disponível para nós...

Mas, vamos lá; no momento, estou lendo The Finkler Question, de Howard Jacobson, vencedor do Booker 2010. Falo dele no próximo post.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Lançamento

Enfim, um blog para trocar ideias e impressões de livros e filmes. Estarei sempre comentando o que estiver lendo e vendo no momento. Comentários e sugestões são sempre bem-vindos.